segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A vitória de Dilma e as lições do Rio de Janeiro

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Sabido o resultado das eleições presidenciais, vitória de Dilma, é o momento das análises.

Dilma foi eleita com pouco menos de 52% dos votos (mais de 54 milhões de votos frente a pouco mais de 51 milhões de Aécio) uma diferença de mais ou menos 3 milhões de votos frente a Aécio. Os votos nulos e brancos passaram dos 7 milhões, enquanto a abstenção foi alta, chegando perto dos 30 milhões, totalizando cerca de 37 milhões de pessoas que não queriam nem um e nem outro.

Dilma foi eleita, mas em um país dividido. O PT perdeu porcentagem significativa de eleitores, sobreviveu mais do que qualquer coisa. É uma vitória, não podemos negar, mas não veio fácil.

Quase metade da população votou em seu adversário, e outros milhões não quiseram sequer votar nos dois candidatos que disputavam o segundo turno. Dilma foi eleita, mas nem de longe pela maioria da população. É preciso, então, responsabilidade e reavaliações.

Mudanças
 
Dilma ensaiou uma revolta contra a Veja/Abril, irá levar adiante não apenas um processo contra a revista e a editora, mas também imporá a discussão real de uma reforma da mídia? Irá rever a forma pela qual o governo injeta rios de dinheiro na grande mídia e, claro, o PT irá rever a verba que paga (admita ou não) à mídia amiga que no fim é apenas a Veja de sinal trocado?

Dilma irá manter sua política francamente criminosa nas comunicações, privilegiando sempre as teles e prejudicando o compartilhamento de conhecimento? O mesmo vale, por exemplo, para a Cultura, assim como precisamos de mudanças profundas na capacidade e vontade do governo dialogar com populações indígenas, nos direitos LGBTs (e nos recuos e submissão frente ao atraso fundamentalista), das mulheres e no trato à questões relacionadas ao meio ambiente e grandes obras de infraestrutura.

Com Dilma foram 4 anos de inexistência de diálogo e de imposição de pautas. Imposição de obras, de eventos, mesmo a tal constituinte por uma reforma política foi uma imposição sem que as ruas tivessem sido consultadas, uma imposição do PT em conjunto com seus movimentos cooptados, como a UNE.

Teremos ainda um ministro como o Cardozo oferecendo tropas federais para brutalizar ativistas, manifestantes e até grevistas, como no caso da greve do metrô este ano?

Irão continuar os gritos fanáticos e dementes de figuras como #Stanley, Eduardo Guimarães, PHA e outros, tidos como arautos por quem se dedica diariamente a espalhar ódio e desinformação ou o PT irá buscar construir uma relação de verdade com a esquerda baseada em respeito e colaboração?

O sentimento de mudança está mais claro do que nunca. Ainda que este sentimento seja difuso. Encontra-se à direita e à esquerda, e mesmo dentre o eleitorado que voltou criticamente em Dilma. É preciso contar que destes votos de Dilma uma parcela quiçá significativa foi de votos críticos. Se assumirmos que a maior parte dos votos de Luciana migraram para Dilma, ao menos 1,5 milhão de votos foram absolutamente críticas, contra o "mal maior". E eram votos que exigiam e exigem mudanças.

Como comentou o professor Pablo Ortellado:
Espero honestamente que o PT entenda que essa vitória só foi conseguida com uma união e engajamento sem precedentes da esquerda para evitar a volta do neoliberalismo. Espero também que esse reconhecimento se reverta numa ação mais progressista, sobretudo na cultura, na comunicação e no meio ambiente.
Superar o ódio e ir para a esquerda?
 
Este é o ponto. Durante as eleições era comum ver militantes petistas, especialmente nas redes, exigindo que a esquerda votasse em Dilma sem exigir nada. Era "obrigação" nossa votar no PT contra o "mal maior" e qualquer recusa era suficiente para xingamentos de fascista, coxinha e etc.

Se é verdade que o PT precisa entender que não apenas venceu por pouco, mas que a esquerda crítica foi crucial para a vitória, por outra o partido terá o trabalho de domar a militância raivosa e suja que criou e manteve nos últimos 12 anos.

E precisa, obviamente, guinar à esquerda.

A esquerda (ou setores dela) não apenas a apoiou criticamente, mas muitos fizeram campanha, empenharam sua credibilidade por Dilma, indo além de repudiar Aécio, mas efetivamente endossando a candidatura do PT. Isto, aliás, poderá inclusive criar rusgas dentro da própria esquerda, mas este é outro assunto.

Pessoalmente não acredito que isso acontecerá. Se a governabilidade foi usada indiscriminadamente por 12 anos para garantir, legitimar e justificar todo retrocesso petista (inclusive projetos nascidos do PT, ou seja, sequer projetos impostos por aliados incômodos que o partido tinha de lidar), o que esperar agora que o congresso eleito é ainda mais conservador? E é preciso também lembrar que é mais conservador também por obra do PT que se engajou em campanhas de fascistas como Collor, Katia Abreu, dentre outros.

E a contar pelo discurso da Dilma após a vitória, não veremos qualquer mudança substancial do primeiro para o segundo governo. Discurso de conciliação, de diálogo (que nunca existiu com as ruas e com as minorias, e ela afirma que fará com "as forças produtivas"), de "paz". Nenhuma ponta de autocrítica, mas a manutenção do caminho já traçado.

Dilma se manteve aferrada à piada da Reforma Política como solução pros problemas (seria uma solução, mas não dentro dos moldes propostos, muito menos após uma vitória apertada), pregando o diálogo com setores específicos, citando mulheres, negros e jovens, "esquecendo" de citar Indígenas e LGBTs, em um palanque onde o que faltava era gente de esquerda.

Pelo discurso podemos imaginar que a guinada à direita se aprofundará, pese o apoio crucial da esquerda à sua vitória.

Os próximos 4 anos

O PT não apenas terá de lidar com um congresso mais conservador, como é também responsável pela eleição de muitos desses conservadores. Tendo isto em mente, fica difícil imaginar um governo mais à esquerda. Espero estar errado, mas acho muito difícil que esteja.

Os próximos 4 anos serão difíceis. Dilma foi, como comentei, eleita por margem estreita, não chegou a 4 milhões de votos sua vantagem. No geral, a maior parte do país não votou em Dilma, logo, o governo terá de trabalhar muito para garantir sua legitimidade, precisará realizar mudanças profundas e, acima de tudo, realizar uma autocrítica que está atrasada pelo menos uma década.

A continuidade das baixarias patrocinadas pelos MAVs, pelos "militantes" virtuais, pela mídia "amiga" acrítica e suja poderá dificultar a vida de Dilma, ampliando o ódio que já vimos se espalhar pelas ruas que virá junto com gritos contra a frágil legitimidade eleitoral conseguida pelo PT.

Como comentou o Maurício Caleiro no Twitter, é importante ter em mente 
Essa eleição coloca uma grande questão ao Brasil: como fazer com q as disputas se deem em torno de programas e não de ataques baixos.

Serão 4 anos duros, independentemente do caminho que o PT escolher trilhar, mais do que nunca precisamos de uma esquerda forte e atuante, que se reinvente.

O exemplo do Rio para a esquerda

A votação do Tarcísio no Rio, assim como de Freixo, Jean, dentre outros, demonstra que há espaço para o crescimento da esquerda e daí precisamos tirar forças e lições.

Aliás, a eleição no Rio é emblemática. Os votos Nulo/Branco/Abstenção, somados, VENCERAM Pezão que foi eleito em absoluta minoria. Ele recebeu 4.343.298 votos enquanto o chamado "não-voto" recebeu 4.348.950, ou seja, perdeu por 5.652 votos. É uma situação bastante interessante e mostra que Junho teve um papel relevante nas eleições do Rio. E é bom lembrar que muitos votaram em Pezão apenas para evitar a vitória de Crivella e da IURD.

Pezão tem legitimidade bastante limitada e o Rio pode voltar a ver manifestações no ano que vem.

Cabe à esquerda ter a capacidade de superar diferenças pontuais e se unir, cerrando fileiras e as ampliando, buscando criar um polo alternativo à PT e PSDB (e eventualmente à Marina, que não é uma opção e saiu bastante queimada dessas eleições) para que em 2018 não se veja novamente numa encruzilhada e apoiando novamente a continuidade do PT, jogando no lixo projetos e militância.

Jean terá a responsabilidade de cobrar as promessas feitas a ele por Dilma, assim como outras figuras do partido terão de pressionar fortemente por pautas progressistas. Mas todos tem que tomar cuidado para não cair no canto do PT e não afrouxarem na construção de uma alternativa e de se fazer presente nas ruas e no parlamento como uma voz alternativa, de esquerda.

Dois tuítes de Luciana Genro, no fim, me dão esperança:
Venceu o PT contra o retrocesso. Menos mal. Mas é a esquerda que abandonou suas bandeiras que abriu espaço para o PSDB crescer tanto. Por isso não abrimos mão de ser oposição e construir uma esquerda coerente.Nossas lutas não são decididas nas urnas mas sim nas ruas!A elas!
Vamos à luta!

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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Porque anularei meu voto com a consciência tranquila

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Acima de tudo há uma razão crucial pela qual eu tenho a consciência tranquila por anular meu voto e nem remotamente pensar em votar na Dilma.

Dilma e o PT ESCOLHERAM Aécio. Escolheram disputar o segundo turno com ele.

O PT fez pesada, desleal e suja campanha contra a Marina. Atacaram até sua história, mesmo quando a história dela é basicamente a história do PT. Atacaram aliados de Marina que ontem eram aliados do PT (Como a Neca), enfim, foi uma campanha podre aos moldes da que o PSDB costuma fazer contra o... PT!

O PT no papel de atacado pelo PSDB se sentiu no direito de fazer o mesmo (pese continuar a se fazer de vítima frente ao PSDB e a mídia que o próprio PT financia e em 12 anos não passou nem perto de regular).

Essa campanha suja do PT ajudou na queda de Marina (claro, não foi o único fator, Marina foi péssima nos debates, voltou atrás em programa (pese o PT nem ter lançado o seu) e dois minutos de TV contra o tempo dos outros candidatos era algo bem complicado.

Mas, enfim, o PT mirou Marina e deixou Aécio. Porque?

Porque sabia que a esquerda não apoiaria o PT automaticamente num segundo turno contra Marina (pelo contrário, amplos setores iriam para a campanha de Marina mais fácil do que a da Dilma) e sabia que os votos de Aécio jamais migrariam pra Dilma, mas também pra Marina. O PT tinha a esperança de que os votos de Marina migrassem pra si e, claro, tinha o eterno "mal maior" para garantir o apoio da esquerda.

Com a tese do "mal maior" o PT teria mais 4 anos para fingir ser de esquerda falando que, na eleição, toda a esquerda esteve unida. Unida por motivo de força maior, mas para a propaganda petista o que interessa é apenas a imagem e não a realidade.

O primeiro fator parece não estar (ainda?) seguindo o caminho desejado pelo PT - a maior parte dos votos da Marina estão indo pro Aécio -, e o segundo era óbvio. Líderes de esquerda chegaram a apoiar o PT sem sequer exigir nada, sem uma agenda mínima sequer de apoio aos direitos humanos ou de pautas progressistas.

Se o congresso atual é o mais conservador da história, parte disso é culpa do... PT! Ao invés de eleger quadros de esquerda (imensas dúvidas quanto ao "esquerda" aí, mas ok), o PT preferiu apoiar e fazer campanha para Katia Abreu, Collor, dentre outros. O deputado federal mais votado do PT de São Paulo foi o... Andre Sanches!

Ou seja, o PT se aliou com gosto à direita, se lambuzou, elegeu, fez campanha, mas hora hora do "vamos ver" pede ajuda à esquerda?

Só pode ser piada. E é, colocaram a Katia Abreu no primeiro programa do partido na TV no segundo turno!

Tenho o maior respeito por quem tapa o nariz pra votar no PT contra o PSDB, assim como tenho pelo Jean que apoia a Dilma, mas exigiu contrapartidas, mas simplesmente não vejo razões pra apoiar o partido contra o oponente que escolheram num jogo que pensaram já ter ganho.

Querem ajuda? Peçam pra Katia Abreu. Nem o meu mais absoluto desprezo por Aécio e o verdadeiro medo que sinto do PSDB no poder são capazes de me fazer passar por cima da racionalidade e apoiar esta candidatura do PT. O que o PT faz tem nome: Chantagem. E é inaceitável.

Se votar fosse (não consegui transferir meu título), anularia com gosto e prazer.
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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A tese do "mal maior" prejudica a todos e mantém o PT acomodado

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*Este texto é uma atualização e ampliação do "Mal maior": O petismo saindo do armário (de novo e outra vez)
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Não se vota no menos pior, busca-se construir alternativas. Voto deve ou deveria ser algo consciente, feito com a intenção de melhorar o país e não na base do medo, na base do "não tem tu, vai tu mesmo".

Se não há uma opção viável, temos de nos preparar para a luta contra quem quer que vença e não FAZER CAMPANHA para alguém ruim apenas pelo medo de outros.

Nós não temos que escolher quem será nosso algoz. Temos de lutar contra quem quer que o encarne.

Claro, podemos entender o papo do "mal maior" se estivéssemos, por exemplo, frente ao perigo de uma Frente Nacional ou algum partido abertamente fascista ou neonazista vencer. Não é o caso. Oras, Bolsonaro, um legítimo fascista é inclusive da base do PT (pode odiar o partido, votar contra, mas continua sendo do PP, da base aliada)! Há fascistas para todos os gostos e em todos os lados.

Genocídio indígena, aliança carnal com ruralistas, com evangélicos fundamentalistas (Dilma chegou a revogar decreto regulando o aborto apenas por exigência dos fundamentalistas aliados, sem falar nos programas do Ministério da Saúde que Padilha cancelou pela mesma razão), cooptação de movimentos sociais, brutalidade nas ruas e, é sempre bom lembrar, com uma militância (sic) fanatizada nas redes.

Na prática, o PT e o PSDB são idênticos. A tese do "mal maior" não se aplica.

Se por um lado o PSDB é mais feroz nas privatizações (ainda que o PT também privatize), por outro o PT é voraz na cooptação e criminalização de lutas sociais. Dilma assentou MENOS que FHC. Demarcou MENOS que FHC. E FHC é um canalha que dispensa comentários, quem viveu durante seu governo sabe bem o que digo.

Se por um lado o PSDB é visto de forma mais simpática pela mídia comercial (apesar de ser hoje o PT quem a financia), o PT tem sua mídia pessoal, tem seus "progressistas" e sua "militância" virtual absolutamente fanatizada.

Agora, é fato que cada pessoa tem formas diferentes de pensar e ver o mundo, até compreendo quem chegue na urna e, num momento de desespero, faça sua escolha e vote em Dilma. Mas fazer campanha? Tentar convencer outros de que um dos governos mais lamentáveis dos últimos tempos é bom?

É muita falta de noção e de coerência.

Cadafalso, pelotão de fuzilamento ou guilhotina. Faz diferença?  É uma falsa opção, vamos morrer de maneira horrível de qualquer forma. Nos cabe denunciar a situação e buscar construir alternativas e não ficar eternamente sustentando uma delas porque enquanto existir essa sustentação esse partido e esse candidato não irá ver razão para repensar como faz as coisas. O PT SABE que muita gente acaba votando nele, não importa o que façam, pela tese do "mal maior". 


É exatamente este o grande problema. Votar no PT em segundo turno apenas o faz se acomodar. Porque mudar, porque fazer autocrítica se na hora do "vamos ver" o pessoal vai votar no PT de qualquer forma? O PSDB será eternamente o "mal maior" e o PT não importa o quão enfiado na direita esteja será sempre a opção.


Que me desculpem, mas vocês estão dando carta branca para o PT continuar a ir para a direita sem culpa, sem preocupações. Não adianta falar que vai votar criticamente, o que importa pro PT é teu voto, mais um número, e não o que você pensa ou deixa de pensar nele.

Então porque fariam qualquer tipo de autocrítica se na hora que importa conseguem os votos?

De que adianta passar 4 anos fazendo oposição para, na hora do voto, apoiar quem você combate ou combateu? 
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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Conservadorismo: Os próximos 4 anos serão duros, vença quem vencer.

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O PT quase desapareceu em alguns estados, como PE e DF e teve votação muito menor e menos eleitos que nas eleições passadas. Caiu de 88 para 70 deputados. Ao passo que o PSDB subiu (44-55) e houve uma explosão de partidos nanicos aparecendo.

Vamos nos lembrar qual era o discurso dos petistas fanáticos pra justificar todo e cada recuo vergonhoso: Governabilidade. O PT não teria grande bancada, logo, está justificado e aceito todo recuo.

Agora será pior. Com bancada ainda menor (por escolha do PT, aliás, que perdeu votos tanto do eleitor enojado quanto por ter aberto mão de vagas para apoiar bandidos como Collor ou Katia Abreu) os recuos serão maiores e as justificativas nojentas da "Militância" idem.

Mas porque o PT recuou tanto? São vários os fatores, mas imagino que os principais seriam:

- Guinada para a direita afastou eleitorado de esquerda, além da campanha suja petista que afastou outros tantos
- Protesto de junho e repressão durante a Copa (o número de votos nulo, branco e abstenções em estados como Rio e SP foi enorme, o que denota um cansaço do eleitorado)
- Apoio do PT a candidatos milicianos e bastante duvidosos (no Rio em especial, os Tatto em SP, etc)
- Apoio do PT a candidatos abertamente fascistas, como Katia Abreu ou Collor, ou ainda Lobão Filho, Helder Barbalho, etc o que, no fim, diminui a visibilidade do PT e também afasta o eleitorado de esquerda
- O PT lançou candidatos fracos em estados como São Paulo e Santa Catarina (dentre outros) o que diminuiu a visibilidade/atratividade dos demais candidatos a deputados
- Um esgotamento natural do lulismo/petismo

A maior parte dos fatores me parecem ter a mesma origem, que é o lulismo de coalizão empurrando o partido inexoravelmente para a direita e mesmo o apoio a fascistas e gente de extrema-direita. Curiosamente, candidatos de extrema-direita como Telhada ou Bolsonaro tiveram votações incríveis, e isso se explica pelo antipetismo que, em parte, cresce pelo ódio da cooptação feita pelo PT de elementos tradicionais da direita.

É uma verdadeira salada.

O fato é que se os últimos 4 anos de Dilma foram ruins, os possíveis próximos 4 serão piores, pois serão mais partidos irrelevantes para acomodar, mais fascistas para obedecer e mais espaço para a desculpa esfarrapada da "governabilidade" para justificar cada recuo vergonhoso.

Vejam bem, as alianças e o modo de fazer política do PT são os grandes responsáveis pela bancada ter diminuído e do partido ter (sic) que aprofundar ainda mais tais alianças e, logo, o conservadorismo. O militante fanatizado, aliás, é o grande responsável por isso, por aplaudir recuos e justificá-los, alienando assim parte considerável do eleitorado que simplesmente não aceitou calado.

E não se enganem, parte considerável dos votos de Marina e acredito que uma parte dos que Aécio terá (além de muitos votos nulos e abstenções) vieram e virão de eleitores que outrora votavam ou votariam no PT, mas que se sentem enojados pelas práticas políticas do partido.
O PT e o governo achavam que poderiam alimentar uma cultura de direita e, ao mesmo tempo, angariar os votos dos eleitores da direita histórica. Erro brutal (e que não começou agora, mas há anos!). Cometeram um crime contra as lutas emancipatórias. A possível vitória do Aécio deve ser colocada na conta do próprio governo, dos partidos e das lideranças políticas de sua base. Rogério Junqueira
Se depois de tudo isso o PT não conseguiu entender o recado, então é apagar a luz e fechar a porta.
 
Claro que 4 anos de Aécio é uma opção igualmente terrível. O PSDB dispensa comentários em seu modo privatista de governar. Obviamente meu texto não tem por objetivo sensibilizar ou alcançar eleitores tradicionais do PSDB.

enfim, fugir para o Uruguai parece uma opção válida e até correta nessa altura do campeonato - em São Paulo mais ainda com Alckmin reeleito direto, pese a nulidade que era o Padilha, e a água acabando.

Só espero que quando a água acabar não venham reclamar pelas escolhas que acabaram de fazer.
Um PT com 18 deputados a menos e qualitativamente pior.
Um Congresso fracionado numa miríade de partidos e de perfil ainda mais conservador e fisiológico.
Uma presidente (se vier a ser eleita) com a pior votação desde que o PT conquistou a presidência da República.
Moral da história: tudo o que você viu até agora sobre a tal governabilidade será brincadeira de criança quando comparado ao que está por vir, para deleite do PMDB. Gustavo Gindre
Lista do Congresso em Foco:
Partido – Número atual de deputados – Total de eleitos
PT – 88 – 70
PMDB – 71 – 66
PSDB – 44 – 55
PP – 40 – 37
PSD – 45 – 37
PR – 32 – 34
PSB – 24 – 34
PTB – 18 – 26
DEM – 28 – 22
PRB – 10 – 20
PDT – 18 – 19
SD – 22 – 16
PSC – 12 – 12
Pros – 20 – 11
PPS – 6 – 10
PCdoB – 15 – 9
PV – 8 – 8
Psol – 3 – 5
PHS – nenhum – 4
PEN – 1 – 3
PMN – 3 – 3
PTN – nenhum – 3
PRP – 2 – 2
PTC – nenhum – 2
PSDC – nenhum – 2
PRTB – nenhum – 1
PSL – nenhum – 1
PTdoB – 3 – 1
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domingo, 5 de outubro de 2014

Esquerda no Brasil: Junho morreu na praia?

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"Por que a onda de 2013 vai morrer na praia? Entre outros motivos, porque as redes e organizações ditas horizontais que chamaram os protestos do ano passado não produzem lideranças. A democracia representativa depende de líderes, o poder não admite vácuo. Os manifestantes não se organizaram para preenchê-lo, mas os profissionais sim. É a volta dos que nunca foram embora.

Por essa contradição mal-resolvida, pela aridez econômica e climática, 2015 deve ser ano de mais nuvens lacrimogêneas. Melhor estocar água e vinagre."

Infelizmente faz sentido. Aliás, eu lembro de ter conversado longamente com muita gente sobre isso. O problema em si não está na horizontalidade (o Podemos mostrou que é possível manter a horizontalidade e criar lideranças e esperança), mas sim na falta de líderes e na insistência de alguns grupos de repudiar a política (eleitoral) como um todo.

Ao invés de "Só a luta muda a vida", o "vote nulo". O primeiro lema agrega a luta nas ruas, mas não esquece que até algo mudar teremos de também preencher espaços no parlamento. É triste ver que algumas pequenas lideranças surgidas das ruas encham a boca pra falar que políticos são todos iguais e pregando voto nulo. Oras, isso é o mesmo que dizer que não há diferença entre votar num Bolsonaro ou num Jean Wyllys.

É despolitizante.

É óbvio que o voto nulo em si não é despolitizante, há casos em que é a única alternativa, mas o voto nulo e ponto, como solução enquanto negação da política eleitoral e partidária é despolitizante, pois negamos um direito, reduzimos tudo ao zero, igualamos desiguais e nos recusamos a nos comprometer e a ter esperanças.

No fim, nos descolamos da sociedade adotando uma posição pseudo-vanguardista e iluminada e nos fechamos em casulos.

Na Espanha a esquerda soube se juntar e criar uma força política que agregou boa parte dos movimentos nas ruas, e no Brasil? Ainda não fomos capazes.

Não significa que junho tenha "morrido na praia" - ainda -, significa, neste momento, que a esquerda ainda não foi capaz de passar por cima de diferenças e buscar uma politização conjunta agregando ruas e urnas.

Ainda há muito o que nadar.
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sábado, 4 de outubro de 2014

Marina e a alegoria espanhola: O PT prefere o PSDB

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Algumas pessoas um tanto quanto inocentes tem se surpreendido com a aparente preferência do PT por ter Aécio disputando o segundo turno e não a Marina.

A surpresa, de fato, só pode vir de inocência.

Se por um lado é óbvio que dado o crescimento inicial astronômico da Marina esta iria se tornar o principal alvo dos petistas e de sua campanha suja, por outro é interessante notar que mesmo com sua imensa queda a carga contra ela continua e vemos pelas redes petistas mais ou menos destacados comentar sem pudor que preferem disputar com Aécio e reeditar o velho "bem versus mal" fake de sempre, ou seja, reeditar o velho PT versus PSDB de onde nada de bom sai.

É mais confortável para o PT e, lógico, interessa ao PSDB.

O curioso é que este é um método sujo típico de partidos que flertam com o fascismo, vide agora o caso do PP na Espanha. Partido franquista, governa a Espanha há considerável tempo, com danos significativos e, claro, com respostas inúmeras das ruas. Se é verdade que dificilmente perderia as eleições que se aproximam, pode porém perder a maioria absoluta e se veriam em situação complicada frente à segunda força: Não mais o cordial e conivente PSOE, mas o "radical" Podemos, nascido das ruas, dos movimentos indignados e uma verdadeira pedra no sapato das elites.

As hostes do PP já pensam em compor eleitoralmente (mesmo que não-oficialmente) com o PSOE, que se tornaria terceira força e dificultaria a vida dos bancos e elites.

O que vemos no Brasil e na Espanha é um quadro semelhante de dois partidos de direita (pese que PSOE, PT e PSDB se dizem de esquerda), financiados pelas mesmas elites e representando os mesmos interesses, apavorados e compondo aliança informal para derrotar a terceira via (mesmo que no caso do Brasil essa "terceira via" seja extremamente duvidosa, pese ser uma novidade) que pode ou poderia colocar em perigo seus negócios e negociatas.

É a carga máxima de ataques à "terceira via" numa composição "branca" com a força que até ontem era a grande inimiga. O inimigo do meu inimigo é meu amigo.

Para o PT o melhor negócio é disputar o segundo turno com o PSDB, que tem um candidato fraco, do que com a Marina que pese se mostrar igualmente fraca nos debates televisionados, possui um discurso muito mais perigoso ao PT e não tem o mesmo teto de vidro que o PSDB, que governou deforma desastrosa o país em anos anteriores.

Da mesma forma, para o PP o melhor é ter a oposição cordial do PSOE do que enfrentar um adversário que não se submeterá à "banca" e à "troika" e que dificultará os acordos e negociatas desse partido e eventuais alianças pontuais com o PSOE, o que ficaria ainda mais escancarado se este fosse terceira força e se recusasse a formar uma frente de esquerda.
 para continuar nos braços dos patrocinadores.

Neste ponto o PSOE encontra no PT um semelhante, que, no poder, se recusa a ir para a esquerda para não perder patrocínio e aliados (muitos abertamente fascistas). É mais cômodo administrar o país para os poderosos que incomodá-los.

Por fim, o discurso da Marina é mais perigoso ao PT e seus interesses que o do PSDB, ligado às mesmas elites empresariais, oligarcas, ruralistas e afins (eram todos aliados de FHC antes de migrarem para Lula/Dilma), daí a virulência do repúdio de membros e simpatizantes fanatizados deste partido nas redes e no horário político.

O interessante é que mesmo com outras intenções, a comparação entre os cenários eleitorais brasileiro e espanhol já foi feita até por petistas, ainda que enviesada, com total desconhecimento de causa e com o interesse único de ajudar o PT.

Neste artigo, para quem se interessar, explico melhor neste texto o falso argumento do blogueiro petista e analiso também parte da razão do pavor do PP e do PSOE frente ao crescimento do Podemos em números e em possibilidade de coalizões.
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