sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Ainda precisamos falar sobre imigração: a Europa diante da crise e seus limites

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Ao menos uma CENTENA de mulheres sofreram ataques sexuais em Colônia, na Alemanha. Muitas denunciaram que os ataques foram perpetrados por homens árabes e do norte da África, e é preciso ter a real noção da dimensão disso.

Não se sabe (ainda) se os "homens árabes e do norte da África" eram imigrantes mais antigos, imigrantes recentes ou mesmo refugiados - pese as últimas informações indicarem que refugiados tenham participado dos ataques -, mas penso que é uma questão subsidiária.

O importante é entender os efeitos e também as causas.

Zizek, em brilhante artigo no fim do ano passado, lembrou da necessidade de se resgatar os valores ocidentais/europeus diante do influxo de imigrantes e refugiados. Não se trata de negar a entrada dos refugiados, mas de exigir padrões mínimos de convivência.

Não é novidade que o Oriente Médio está anos - quiçá décadas - atrasado em relação a diversos temas sociais, notadamente na questão do respeito e dos direitos das mulheres. Muitos imigrantes e refugiados chegam à Europa com uma visão distante da europeia do papel da mulher e tem dificuldades de integração - este recente ataque é um exemplo disso. O mesmo vale para questões ligados à sexualidade ou aos direitos LGBTs.

A Alemanha acerta ao receber refugiados, porém o governo não foi capaz ainda de analisar os efeitos desse refúgio para a coesão social do país (e da Europa) e nem formas de garantir a manutenção da coesão social. Muito fala-se na dicotomia entre integração e multiculturalismo, Zizek e Merkel concordam, ainda que por razões diferentes, que multiculturalismo não funciona. É preciso (mais) integração.

Eu vejo a necessidade de algo entre integração e multiculturalismo. É preciso respeitar as diferenças, até mesmo promovê-las, mas dentro dos marcos de um processo de integração, ou seja, é preciso aceitar o diferente DESDE QUE o diferente não vá de encontro com as bases fundamentais da sociedade europeia/ocidental. Música, cultura, mesmo traços culturais diversos são um acréscimo à cultura receptora, mas costumes baseados no desrespeito aos direitos das mulheres, LGBTs e etc não podem ser tolerados.

Não há multiculturalismo que possa passar por cima de abusos contra direitos humanos. Não pode e nem deve.

A mutilação genital feminina, por exemplo, é algo que faz parte da "cultura" de alguns povos, mas não pode ser tolerada na sociedade europeia. O imigrante/refugiado que chega à Europa deve ter isto em mente ou então voltar a seu país. A França, terra do laicismo (pese seus exageros e contradições) não tolera a Burka, logo, não cabe à imigrantes ou refugiados se considerarem perseguidos. Seus costumes (minoritários mesmo dentro da própria comunidade) não podem prevalecer sobre os costumes da sociedade hospedeira e dos valores fundamentais de respeito aos direitos humanos.

Não é um tema fácil, por vezes nem coisas óbvias como Burkas ou mutilação genital são simples de debater - especialmente quando discursos pós-modernos tomam conta. Os imigrantes e refugiados precisam ser tratados não como coitados, mas como seres pensantes e iguais, capazes de travar um debate sobre si e sobre sua cultura (e sobre a cultura que os recebe).
De um lado temos a direita que desumaniza o imigrante - se for negro "melhor" ainda -, que o trata como uma coisa, que mantém firme o discurso de "defesa" frente à "invasão" de imigrantes, em geral fugindo da fome, da guerra, em busca de melhores condições de vida...
Do outro lado temos setores da esquerda - e muitos comentadores de internet - que se limitam a considerar o imigrante um pobre coitado desesperado com direito a viver na Europa e ser recebido de braços abertos. Tratar como "pobre coitado" é, também, uma forma de desumanização.
E digo isso porque tanto o processo de infantilização quanto de desumanização tem, no fim, o mesmo resultado: Torna o imigrante/refugiado um incapaz. Impede que sua situação seja debatida e mesmo (ou especialmente) que ele tome parte nos debates sobre si. É preciso humanizar o imigrante para debater nossas brechas culturais - e para deixar claro o que podemos e não podemos aceitar.

Como disse o Zizek, a Europa não pode ter medo de impor seus valores em sua própria terra.

Cabe lembrar que buscar uma "nova vida" é algo que todos sonhamos, mas não é um "direito". Infelizmente é a dura realidade.  Buscar refúgio sim é um direito, mas mesmo aí há limites - como o respeito pelas leis e costumes do país receptor. E precisamos levar o debate para marcos e "standards" mais elevados se quisermos ter um futuro.

É fato que há parcelas de imigrantes (e mesmo de muita gente de esquerda) que encara a onda de imigração atual como uma "resposta", um "payback" pelo que os europeus fizeram com o resto do mundo por séculos.

Sem dúvida podemos enxergar a questão assim, mas então damos de cara com uma parede. Qual a solução? A anulação da Europa? Uma punição coletiva à milhões de pessoas pelos erros de seus antepassados (e pelos erros contínuos de muitos líderes atuais)? O que tal atitude traz de bom para o mundo senão mais desagregação, tornando-se um não-debate?

Feita esta introdução, reposto aqui texto que escrevi ano passado para o Brasil Post/Huffington Post que amplia alguns dos pontos (post este que era já uma versão mais elaborada e ampla de outro escrito para o Amalgama focando mais na questão muçulmana):

Precisamos falar sobre imigração: Europa, crise humanitária e o debate ignorado
 
A primeira coisa que precisamos entender sobre os imigrantes que tentam chegar da África e Oriente Médio à Europa, em muitos casos morrendo pelo caminho, abandonados, afogados, queimados, em total desespero, é que não se tratam nem de pobres coitados, e nem de não-humanos ou "coisas".

Estas são as duas posições majoritárias na maioria dos debates. Eles são apenas humanos, diferentes entre si, com histórias únicas, com passados e futuros distintos. São como nós.

De um lado temos a direita que desumaniza o imigrante - se for negro "melhor" ainda -, que o trata como uma coisa, que mantém firme o discurso de "defesa" frente à "invasão" de imigrantes, em geral fugindo da fome, da guerra, em busca de melhores condições de vida...

Do outro lado temos setores da esquerda - e muitos comentadores de internet - que se limitam a considerar o imigrante um pobre coitado desesperado com direito a viver na Europa e ser recebido de braços abertos. Tratar como "pobre coitado" é, também, uma forma de desumanização.
A verdade é que imigração não é uma crise temporária, mas uma crise permanente em que nós escolhemos não mais resgatar essas pessoas, logo, mais irão morrer. Como acabamos nesse vácuo moral em que perdemos qualquer senso de conexão com outros seres humanos? É muito simples: Pessoas que não são seres humanos não precisam de direitos, ou qualquer simpatia, então nós as desumanizamos através de linguagens políticas e pessoais. Nós falamos deles como doenças, como contágio, como vírus. Eles não são nós. Eles não podem se tornar nós.

Um debate sério

Ambos os lados, por vezes, esquecem de ir mais fundo no problema. Sim, existe uma invasão, mas longe de uma "invasão bárbara", trata-se da chegada de um número insustentável de pessoas com línguas diferentes, culturas diferentes, realidades e situações diferentes que causam prejuízo tanto à nação hospedeira quando à nação que deixaram, que se ressente da perda. Não, não estou dizendo que migração seja um fenômeno ruim, até porque é apenas um fenômeno natural e que carrega consigo muitos pontos positivos e mesmo necessários para a sobrevivência da espécie humana, mas sim que em excesso, causa problemas.

Não há um número "ideal" de imigrantes que um país possa/deva receber, o fato é que migração é uma realidade, mesmo uma necessidade. A questão é: Qual o limite? E não falo apenas em termos quantitativos, mas qualitativos. Para ambos os lados. Cérebros de países africanos ou do Oriente Médio migram para a Europa por mil razões, deixando seu país natal órfão de cérebros para facilitar seu crescimento, construção ou reconstrução. Fogem de guerra, de baixos salários, de violência, insegurança ou apenas porque não são valorizados.

Muitas vezes não são valorizados também no país hospedeiro, são vistos como pragas, como "ladrões de emprego", mesmo que muitas vezes só consigam sub-empregos ou aqueles empregos que o nativo não quer. A visão do imigrante, em geral, tem se tornado negativa. Não importa mais se qualificado ou não, se necessitando escapar ou não. A ideia é a de que mesmo hoje num sub-emprego, amanhã seu filho terá condições de disputar com o nativo, tomando seu "lugar de direito". Desperdiçamos desta maneira o imigrante e o imigrante passa a ele próprio se sentir desperdiçado.

Engana-se quem pensa que emigrar é algo simples, uma decisão que se tome sem pensar num estalo e que não tem consequências. Há consequências, muitas, especialmente para quem migra, como já descreveram Said, Gilroy, Kristeva e tantos outros estudiosos do assunto. Ser diáspora não é, enfim, fácil ou simples.

Crise e choque

Não podemos desprezar o fator do choque cultural, que existe. Mulheres de burka nas ruas de uma cidade europeia, pequenas cidades onde por vezes ouve-se mais um ou vários idiomas estrangeiros que o local e até algo mais perigoso, como movimentos de fanáticos que querem impor a sharia em países como a Bélgica.

2015-04-23-1429816032-3963357-294861hxbc3w.jpgEste é um lado, existe outro, obviamente, como esta campanha, "I am immigrant" ou "eu sou imigrante" demonstra com perfeição:

Precisamos pular do discurso vergonhoso do imigrante como inimigo e do discurso fácil apenas de direitos, sem a exigência também de responsabilidades e contrapartidas.

Há uma crise migratória e uma crise humanitária - ou mesmo colapso - porque é fato que o fluxo migratório para a Europa não é de migrantes que vão por vontade, mas porque são empurrados em sua maioria - ao menos no que tange a migração que vem da Síria, da Líbia, de regiões africanas e do Oriente Médio em meio a conflitos sangrentos, fome, miséria. A questão é, cabe à Europa (e EUA) criar as condições para que a migração seja fato natural e não "invasão", ou seja, parar de manipular política e economicamente países mais pobres para que funcionam sob seu controle e vontade.

Cada vez que os EUA ou a Europa derrubam ou sustentam um ditador, um governo, mais a imigração de pessoas desesperadas cresce. Fome, pobreza, falta de oportunidade, o mundo seria muito melhor não se todos estes que fogem desses problemas entrassem na Europa, mas se estes tivessem condições para alterar essa realidade em seus países.

Mas é bom ter em mente que o problema não é apenas na Europa (pese a mídia ter um foco eurocêntrico), mas na África do Sul, por exemplo, há uma crise clara em que sul-africanos adotam políticas ou ações xenófobas contra imigrantes de outros países africanos. É uma crise ou colapso global. Estamos falando da migração em massa e sem qualquer controle (pese não sem precedentes) de populações fugindo de conflitos e situações que, em muitos casos, são reflexo ainda dos processos de colonização e pressões/atuação europeia/americana constante.

O problema é mais que óbvio

A grande questão aqui é a da crise do capitalismo (crescimento canceroso, como bem colocou Meszarós), de uma crise sistêmica que impõe guerras em troco de reconstrução e, com isso, gira as engrenagens de diversas indústrias. O "dano colateral" - para além do óbvio - é a migração.

Enquanto diversos lados buscam tentar resolver o problema na ponta final da cadeia, poucos efetivamente observam que o problema está no começo da cadeia, na própria ideia de se fazer guerra para solucionar conflitos anteriores, de acirrar ânimos étnicos/ideológicos para fabricar conflitos, de sustentar parte considerável das economias do chamado primeiro mundo com guerra no terceiro mundo (via exportação de armas, por exemplo). O escritor Anders Lustgarten escreveu um artigo muito interessante para o The Guardian abordando exatamente a questão que coloco:
Em toda a raiva sobre a migração, uma coisa nunca é discutida: o que fazemos para causá-la. Um relatório publicado esta semana pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos revela que o Banco Mundial deslocou um impressionante número de 3,4 milhões de pessoas nos últimos cinco anos. Ao financiar privatizações, grilagem de terras e barragens, por apoiar empresas e governos acusados ​​de estupro, assassinato e tortura, e por colocar 50 bilhões de dólares em projetos classificados como de grande risco de impactos sociais "irreversíveis e sem precedentes", o Banco Mundial contribuiu enormemente para o fluxo de pessoas pobres/empobrecidas em todo o mundo. A única coisa mais importante que podemos fazer para impedir a migração é abolir a máfia do desenvolvimento: o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, Banco Europeu de Investimento e do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento. Um segundo muito próximo é parar a bombardear o Oriente Médio. O oeste destruiu a infra-estrutura da Líbia, sem qualquer pista sobre o que iria substituí-la. O que sobra é um estado de vácuo comandado por senhores da guerra que estão agora no centro do contrabando de pessoas no Mediterrâneo. Estamos justo por trás do regime de Sisi no Egito que está erradicando a primavera árabe, reprimindo os muçulmanos e privatizando infra-estrutura a uma velocidade alarmante, tudo isso empurra um número enorme de pessoas para os barcos. Nosso trabalho passado na Somália, Síria e Iraque significa que essas nacionalidades estão no topo da lista de migrante

Recentemente a chanceler sueca Margot Wallstrom deu declarações que desagradaram à Arábia Saudita, para além de todo o debate específico sobre suas declarações - e hipocrisias -, sobra uma questão: E o comércio bilionário da indústria sueca de armas com não apenas a Arábia Saudita, mas com outros Estados francamente terroristas e ditatoriais?

Sem dúvida precisamos lidar com o problema que impõe a migração em massa hoje, mas de nada adianta apenas tentar enxugar o oceano com um pano, é preciso tratar das causas que levam à migração e, em especial, a migração em massa.

De nada adianta apenas deslegitimar como "fascismo" - embora haja muito disso - a percepção de parte da população europeia de que estão sendo invadidos. São, de fato, milhares e milhares de imigrantes que chegam todos os dias à Europa que, de quebra, enfrenta uma crise sem precedentes.

Nada justifica receber mal estes imigrantes ou usá-los como bodes expiatórios para mascarar as políticas criadas pelos próprios governos europeus, mas tampouco soluciona o problema apenas gritar que um lado é intolerante e, como acontece, dizer que os imigrantes tem que continuar vindo porque a "Europa merece por tudo que fez quando colonizou o mundo" - acreditem, já ouvi várias vezes este discurso.

Sim, a Europa fez muito (mal), o colonialismo deixa marcas até hoje, se reproduz, mas não vejo onde acirrar ânimos ou mesmo pregar uma versão estranha de vingança seja a solução. Como já escrevi:
A esquerda não é capaz de debater os medos da população que, em boa parte, acredita estar sendo "islamizada" e invadida, um sentimento que não é totalmente deslocado. A esquerda também não foi capaz de demonstrar para esta população que em grande parte o crescimento do fundamentalismo e da imigração (i)legal vem das ações de seus próprios Estados contra a África e o Oriente Médio. Ora, recentemente o presidente de Burkina Fasso foi deposto pela população e, ao invés de ser preso e julgado, fugiu do país com ajuda da... França. Ou seja, o antigo colonizador continua a ajudar aqueles líderes que fazem seu trabalho sujo e mantém países em situação de miséria e controle ferrenho.

É impossível que a situação ou o sentimento de invasão na Europa mude enquanto a presença da Europa no mundo não mudar também. Mas descartar como simples preconceito ou "nazismo" o sentimento de amplas camadas populares em relação aos imigrantes é querer fechar os olhos para a realidade e acabar entregando de vez o jogo para a extrema-direita.

Um sentimento nada desprezável

Precisamos debater seriamente a questão da migração, mas buscando argumentos verdadeiros e buscando especialmente entender os sentimentos não apenas dos europeus, mas dos imigrantes de todo o mundo. Porque migram? Quais são seus sonhos? Querem mesmo migrar ou são levados pela impossibilidade de viver em sua terra? O que podemos e devemos fazer para tornar o/seu mundo mais justo?

No dia 20 de abril ministros de interior e exterior europeus se reuniram e firmaram um programa de 10 pontos para lidar com a imigração e as crises humanitárias relacionadas. Alguns pontos interessantes, mas em geral nada que altere a realidade. Devolver imigrantes ilegais? Para onde? Para serem mortos pela ISIS, por exemplo? Combater contrabandistas? Isto vai realmente resolver o problema? Ao que parece o interesse da Europa é dificultar a chegada de imigrantes ilegais, mas sem combater as causas da imigração (em massa). Uma nota que seria cômica, não fosse trágica é a da declaração do primeiro ministro inglês David Cameron à BBC de que a marinha inglesa estava pronta para ajudar no resgate de reugiados, mas nem pensar receber estes refugiados no Reino Unido.

Sem dúvida estamos diante de um homem de coração imenso. Imenso e podre.

Não é uma surpresa que a Anistia Interncional tenha considerado o plano como "totalmente inadequado" e "quase além das palavras".

É importante a adoção de medidas para evitar a alta mortandade de imigrantes que tentam cruzar o mediterrâneo, assim como medidas para integrar e recebê-los, porém não pode ficar só nisso. A Europa irá continuar a receber milhares de imigrantes em situação desesperadora que acabarão nas ruas e periferias, sem emprego e sem esperanças e ponto? Sim, a Europa precisa assumir sua responsabilidade e mesmo receber o máximo de imigrantes que puder comportar, mas sem tratar das causas, os remédios adotados terão sempre prazo de validade curto e efeitos colaterais terríveis.

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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Do petismo não praticante ao neoPTcostalismo

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Deus, sua pastora e o papa do petismo
Sabe aquele católico não-praticante que existe em toda família? Ele exige que as crianças sejam batizadas, vai uma ou duas vezes por ano na igreja - em geral missas de sétimo dia ou algo semelhante -, defende casamento na igreja e tem sempre uma cruz numa correntinha no pescoço, mas em geral dá a mínima pra igreja, pras incontáveis regras e mesmo pro papa. Ele pode ser conservador, pode ser progressista, não importa, no fim a religião é pra ele algo que está sempre ali, mas ele não se importa muito com os rituais ou a instituição exceto em alguns momentos-chave.

Isso descreve uma parte considerável dos brasileiros, ao menos dos brasileiros que se declaram católicos, como todos sabemos. O católico não-praticante (em geral o mais progressista) é aquele que até tece críticas à igreja, mas por vezes torce o nariz quando a crítica vem "de fora".

Sabemos também que muitos outros brasileiros migraram do catolicismo (ou do catolicismo não-praticante) para o (neo)pentecostalismo (a Assembleia de Deus não é propriamente neopentecostal, mas como em geral se apresenta de forma tão tosca quanto as "igrejas" desse ramo, incluo apenas para facilitar a análise.

Certeza que Malafaia me perdoará), uma vertente que em geral exige um certo grau de fanatismo, exige mais "prática", mais observação de certas regras e em geral tudo isso vem acompanhado com uma defesa cega de dogmas, líderes-pastores e da própria instituição a que se filia.

Um fenômeno bastante semelhante ocorre no campo político, falo dos fenômenos do "petismo não praticante" e do mais grave "NeoPTcostalismo.

O Petismo não praticante é manifestado por aquele que em geral cresceu apoiando o PT, que vem de família de esquerda (petista, brizolista, comunista), e é incapaz de largar de vez o petismo. Critica sim aqui e ali, reclama do governo, do deputado, de algumas políticas, chega até a pensar em renegar a igreja, ops, o partido, mas nunca consegue forças para tanto.

Já o NeoPTcostal é o fanático. É o que enxerga uma total divindade no PT e em seus líderes, não critica ou quando o faz é sempre em benefício do partido, do "bem maior", mas mesmo assim as críticas são tímidas e muitas vezes nem parecem críticas, mas textos escritos de forma hermética apenas para convertidos serem capazes de compreender.

A palavra de Lula (ou Deus) é sagrada, sua profeta Dilma é humana, mas igualmente divina, assim como o presidente do partido (no momento Rui Falcão) é a personificação do Papa. o NeoPTcostal acredita numa luta entre o bem e o mal (ou o "mal maior"), e que são a linha de frente do "bem".

Neste grupo se inserem ainda os pastores, os cães de caça pagos ou não (e cuja "pregação" farta pode ser encontrada no tumblr Governismo, a doença infantil - mas fica um alerta, o conteúdo é grotesco) que passam seus dias a pregar e defender os dogmas (novos ou antigos) ditados por deus, seu filho (ou no caso sua filha) e pelos papas e outros santos (deputados, senadores, ministros). Eduardo Guimarães, José de Abreu, Stanley Burburinho são apenas alguns dos nomes mais conhecidos dentre os pastores NeoPTcostais.

E nesta defesa - assim como se observa na história dos santos católicos - não importa a mínima veracidade, qualquer coerência ou mesmo ética, vale tão somente a defesa cega dos interesses evangelizadores do partido/igreja cuja função final é a dominação (a manutenção do poder) e, claro, a divisão do lucro entre apoiadores (que raramente são os fanáticos seguidores). Qualquer semelhança com o modus operandi das igrejas neopentecostais NÃO é mera coincidência.

E claro que como boa igreja adepta da "teologia da prosperidade", o NeoPTcostal tem suas empresas de fachada: UNE, UBES, PSeudoB (também conhecido como PCdoB), CUT, etc., além de sua Folha Univers... ops, DCM, Brasil 171 (também Brasil 247), Portal Metrópole, O Cafezinho, etc, ou seja, mídia a favor, muitas vezes sustentada com dinheiro público ou com grana de estatais, de sindicatos cooptados ou de "doações" de outros membros da seita e por aí vai. O petista não praticante, por vezes, também dá voz a estes veículos religiosos, mesmo que em tom crítico, pensando que irá ajudar na luta contra o "mal maior" e que assim criará um debate que deixará a igreja mais perto do que pensam ser ideal. Ledo engano.

Claro que há, ainda, um encontro entre o NeoPTcostal e o petista não praticante, afinal são todos mais ou menos cristãos, perdão, petistas. Por vezes o fanático, carinhosamente apelidado de "membro da seita", precisa dar lições de fé ao praticante, fazê-lo voltar à observação dos mandamentos: "Não assumirás o roubo, mas se for pego acuse o inimigo de também fazê-lo", "Não terás ética, mas se questionado afirme que o inimigo foi anti-ético primeiro", "não defenderás os direitos humanos, mas vais jurar de pé junto ser o paladino da defesa das minorias" e daí em diante.

Em períodos eleitorais é que vemos melhor esta dinâmica. O NeoPTcostal sai em pregação (pelas redes sociais, porque essa turma já não sabe o que é ir às ruas tem tempo) atacando os infiéis (qualquer um que não seja membro da seita), buscando queimá-los na fogueira e atrás de almas não-praticantes para fazê-las retornar ao seio da religião.

E, em geral, o praticante sente que neste momento deve voltar à religião. Como o cristão que criticava a igreja e o papa, mas se emocionou com o novo papa e acompanhou com interesse e expectativa seus primeiros passos, o petista não-praticante encontra na eleição o momento de fazer as pazes com Lula e voltar ao seio da santa igreja. E dá seu voto ao PT contra o "mal maior", crente (ops) que o futuro será melhor, que tudo vai mudar, que a igreja será gay-friendly, que mulheres serão ordenadas... bem, essa é outra história.

O não-praticante escolhe, enfim, a eleição para voltar à religião verdadeira e segue entusiasmado e neste ponto se unem aos pastores e fiéis NeoPTcostais (neste ponto o petista é mais adepto da comunhão que os cristãos em si) numa verdadeira festa da democracia!

Este fanatismo político tornado religioso apenas contribui para que o país se afunde, para que a esquerda se encontre perdida em uma encruzilhada e incapaz de caminhar adiante. Esta insistência nesse "ecumenismo" nocivo, essa incapacidade de superar de vez o petismo ou ao menos de manter a coerência nas críticas (ou ao menos transformar as críticas em ações) joga a esquerda cada vez mais para um buraco que, em algum momento, será incapaz de sair. Uma Reforma faz-se urgente.
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segunda-feira, 27 de julho de 2015

O maior inimigo da esquerda é a própria esquerda?

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Graças a este texto, "O Brasil NÃO precisa de um novo junho de 2013", que publiquei em resposta e com algumas críticas à outro texto publicado pela Luciana Genro (com críticas à defesa dela de um novo Junho e ao projeto tosco e petista de "constituinte" e com críticas a alguns quadros do PSOL pelo apoio crítico ao PT e por - alguns - não terem sequer apoiado as manifestações em 2013) eu não apenas fui bombardeado por críticas canalhas da turma ligada à corrente interna da Luciana, MES/Juntos, que agiram como uma perfeita seita coordenada destilando ódio e inclusive manipulando meu texto, mas também fui EXPULSO de um grupo do PSOL no qual eu estava há anos.

Fui banido do grupo sem qualquer tipo de discussão, apenas pela força e vontade de uma corrente que se mostrou incapaz de dialogar críticas pontuais a alguns posicionamentos de sua líder.

É lamentável ver que à medida que o tempo passa a esquerda fica pior. Ou fica igual, sectária, se comportando como seita, incapaz de dialogar ou assumir erros. Se é verdade que o PT é um grande inimigo da esquerda hoje, a própria esquerda é sua maior inimiga.
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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Você é tucano! Ou porque não há diálogo com o petismo

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Há muito tempo que o PT se tornou uma seita. Não há possibilidade de diálogo com petistas da mesma forma que você não dialoga com um homem bomba ou com o Bolsonaro. Simplesmente não falam a mesma língua, mas apenas reproduzem ódio incongruente e inconsequente.

Há muito, ainda, que mesmo jornalistas e blogueiros menos, digamos, comprometidos, embarcaram de cabeça no dia a dia da vida da seita. Não tem mais crítica, apenas a eterna repetição do mantra "quem não está conosco é inimigo, é tucano, é tucanalha, é....".

E este é o ponto, se você não diz amém ao PT você é tucano. Só existe essa opção, não criticar e repetir o que #Stanleys da vida mandam, não importa que não faça sentido, que seja contrário não apenas à história do PT de antes de chegar ao poder ou simplesmente contra qualquer noção de decência. Discordou? É tucano.
O governista vive em uma realidade paralela

Você pode ter acabado de fazer 50 postagens contra o PSDB, continua sendo tucano no mundinho bidimensional, triste e doente dos petistas. E é bom lembrar, tudo que o PT faz é bom. Tudo é pelo bem do povo.

Corte de direitos trabalhistas? É pelo bem do povo.
Austeridade? É pelo bem do povo.
Corte de metade do FIES? É pelo bem do povo.
Trabalho escravo defendido pelos aliados ruralistas? É pelo bem do povo.

E a ladainha segue.

O jornalista e membro da seita Rodrigo Vianna recentemente cometeu um artigo no qual obviamente defende o PT do panelaço durante seu programa eleitoral com ~argumentos~ do tipo "cada vez que vejo a histeria seletiva da classe média antipovo (que tem ódio de bolsa família e detesta pobre em avião), sinto vontade de votar no PT de novo".

Passando por cima de tamanha tosquice típica da incapacidade petista de raciocinar para além do quadradinho, o nobre jornalista ainda comete o, talvez, ato falho, diz: "Gente que jamais bateu panela contra fome, dengue, falta dagua, ou corrupção de Maluf/Quercia/PSDB."

Espera, mas Maluf não é um QUERIDO ALIADO do PT? Com direito a foto sorridente e contente com Lula e Haddad? Me senti impelido a comentar com o máximo de ironia que consegui, mas notem a capacidade argumentativa da indigente intelectual que me respondeu.
Meu questionamento não poderia ter sido mais direto.

1) Maluf é aliado do PT ou não?
2) Maluf é corrupto ou não?

Como resposta, no entanto, obtive:

a) Você não tem argumentos
b) Você não entende de política
c) Você movido por "moralismo igrejeiro" que leva à (e eu consequentemente seria):
     c1) Fascismo,
     c2) ignorância,
     c3) embrutecimento intelectual,
     c4) retrocesso humano
d) Você é ignorante
e) Você é inculto
f) Você age de má fé
g) Você é purista
h) Você é ignorante político
i) Você é igrejeiro

Como consequência:
j) Eu apoio/pareço o Beto Richa
k) Eu sou tucano
l) Tenho argumentos medíocres
m) Tenho a profundidade de um pires
Reparem que, ao fim, minhas duas simples perguntas não foram respondidas, e ainda sobrou espaço para a inteligente figura comentar que Maluf foi aliado do FHC. Verdade, mas hoje é aliado do Lula, da Dilma, enfim, do PT.

Mas aí entramos na grande questão.

Ter sido aliado do FHC ou de qualquer tucano não é impedimento pra ser aliado do PT (pelo contrário em muitos casos, e lembrando que o PT é aliado do PSDB em centenas de cidades), mas isso automaticamente exime o PT de responsabilidade pelo que façam os aliados.

Em outras palavras, se algum dia você foi aliado do PSDB então o que você fizer de bom hoje tá na conta do PT, o que fizer de ruim tá na conta do PSDB.

E vai além, qualquer coisa que o PSDB tenha feito legitima, justifica ou mesmo desculpa o que o PT fizer de igual, semelhante ou mesmo pior.

O PT privatiza estradas, aeroportos, pré-sal? O PSDB fazia também e pior.
O PT agride direitos trabalhistas? O PSDB fazia também e pior.
O PT passa por cima dos direitos humanos? O PSDB fazia também e pior.
O PT rouba? O PSDB fazia também e pior.
O PT mete porrada em professores? Fingimos que não vimos... e o PSDB faz também e pior.

E por aí vai.

Tudo que o PT faz é desculpado ou desculpável pelo que o PSDB fez ou mesmo SONHOU em fazer.

Sim, porque o petista de carteirinha, o verdadeiro fanático da seita também assume o que o PSDB PENSOU em fazer, mesmo que não tenha feito, e este sonho ou pensamento é sempre PIOR do que o que o PT efetivamente faz. Isso também pode ser traduzido pela expressão "Com Aécio seria pior".

Inclusive com Aécio seria pior a retirada sem precedentes de direitos dos trabalhadores promovida pelo PT com as MPs 664 e 665 que, vejam só, o PSDB se opôs (por oportunismo, é verdade, mas se opôs).

Acho que deu pra entender, certo?

Acredito que sim, mas acrescendo mais um dado: A criação de espantalhos.

Durante votação das MPs que basicamente cortavam direitos trabalhistas num dos maiores retrocessos desde Vargas (MPs criadas por Dilma e apoiadas pelo PT) a deputada "comunista" Jandira Feghali foi vitima de machismo. Fato lamentável e a ser repudiado, sem dúvida, mas enquanto os trabalhadores eram lesados a ampla maioria dos petistas e dos "comunistas" se limitavam a tratar do machismo sofrido. Só isso. Foi um espantalho que caiu como uma luva para governistas que queriam fingir que não tinham acabado de destruir direitos de milhões de brasileiros.

O petismo é a arte do fanatismo, de desdizer a si mesmo e negar ter sido contraditório, é cuspir em bandeiras de esquerda, mas continua a se dizer de esquerda, é se aliar e governar com e para a direita, mas afirmar categoricamente que a direita é representada por todos que não apoiam o PT, é se aliar com Collor, Kassab e Katia Abreu e dizer que direita é se opor a eles... E por aí vai.

E, claro, sempre que faltar o argumento, pode-se gritar GOLPE. E, gente, como gostam de gritar golpe.
Link

Me recordo dos protestos de Junho de 2013, aquele onde os petistas gritavam em apoio à PM e defendiam repressão dizendo que quem estava nas ruas era de direita porque, sei lá, lutar por direitos, passe livre e etc deve ser uma bandeira do Bolsonaro (ele próprio da Base Aliada do PT, diga-se), surgiram petistas capazes de dizer que NUNCA o MPL tinha protestado por passe livre e contra o prefeito (no caso, o Kassab), e que só protestava hoje porque era manipulado e que não protestavam contra Alckmin.

Um adendo, é bom lembrar que mesmo defendendo repressão e até oferecendo Força Nacional (via Cardozo), petistas como Dilma usaram a repressão de Junho como campanha contra Aécio. O nível de esquizofrenia é digno de Pinel.

Não adiantou mostrar fotos, relatos até de petistas (oras, eu gravei até depoimento de um vereador petista que tinha sido ferido em protesto!) que tinham protestado, sido feridos e etc, fatos não interessam ao membro da seita, apenas sua realidade alternativa.

Enfim, não estamos diante de um partido com militância, mas sim diante de uma seita. Não se dialoga com seitas. Não é possível dialogar com seitas.

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quarta-feira, 6 de maio de 2015

"Ah, mas a culpa é do Congresso conservador"

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Fico sabendo que ontem teve panelaço de novo no Brasil... Ainda bem que eu estava dormindo. Mas acho engraçado alguns que reclamam do povo batendo panela. "São fascistas, classe média, elite branca"! Normalmente quem diz isso é ao menos classe média e com boa vontade elite branca. Alguns até fascistas (eleitores hardcore do PT, membros do MAV, etc).

Muitos, ainda, são do Team Voto Crítico, aquele que garantiu um novo mandato para Dilma desmontar direta ou indiretamente direitos trabalhistas que sobreviviam desde Vargas. Sobreviveram à Ditadura, sobreviveram a FHC, mas vão morrer com o Partido dos "Trabalhadores".

"Ah, mas a culpa é do Congresso conservador".

Mas amigo, diz pra mim quantos desses conservadores foi eleito com voto, apoio e GRANA petista? Ou melhor, grana roubada da Petrobrás, vamos deixar claro quem era a dona da grana: A Petrobrás.

O PT comprou parte da sua base ~conservadora~ (parte porque sempre tem na cola o cachorrinho PSeudoB que depois de códigos florestais da vida não tem como defender)....

Não, a ~culpa~ não é do Congresso Conservador, a culpa é de quem ajudou a montar esse congresso, é de quem pagou aos piores fascistas para ganhar apoio, é de quem desmobilizou quase completamente a esquerda e os movimentos sociais, é de quem quando parte da esquerda conseguiu se mobilizar (vide Junho) se colocou ao lado da polícia e da repressão tentando silenciar as ruas, é de quem penhorou o país pra FIFA, de quem entregou o governo efetivo para ruralistas, assassinos de indígenas, assassinos da população negra e banqueiros/empreiteiras.

Entregou, é verdade, mas nominalmente estão no poder e tem total culpa pelo resultado de suas ações.

Ações estas que abarcam também os cortes na educação, as privatizações, a situação caótica da saúde, ocupação militar em favelas, medievalismo neopentecostal imparável, etc, etc, etc... E não nos esqueçamos do corte de direitos trabalhistas, do corte até do seguro-desemprego e ainda no começo do petismo no poder, a reforma da previdência tucana (que levou à expulsão dos que depois iriam formar o PSOL)....
Enquanto o PT (direita) e a oposição (de direita) disputam quem bate mais e melhor em panelas, a realidade do desgoverno petista continua batendo...

Tudo isso com apoio entusiasmado de setores fanatizados que engolem o que lhes for mandado engolir e que ainda comete textos como se estivessem na crista da onda. Não, a ~oposição~ não virou panelas, meu caro Rovai, mas a cada batida de panelas o governo adota ainda mais profundamente o programa da oposição.

Não, não se pode jogar toda a culpa nos "aliados". Quem está destruindo a educação brasileira não são os aliados, é o PT, é Dilma, são suas políticas e decisões pessoais. Levy? Conta da Dilma. Austeridade? Conta da Dilma. Quem ofereceu Força Nacional em Junho de 2013 para calar a boca das ruas? Cardozo, do PT.

E a culpa é também de quem, mesmo hoje, continua no apoio, se baseando em lixos que envergonham o jornalismo como Brasil247, Portal Metrópole, dentre outras, ou que adota o discurso de "voto crítico contra a direita", quando quem está no poder hoje nada mais é que a direita mais nociva da história recente do país.

Como disse o Samuel Braun no Facebook:
"Concordo com tudo, só não consigo me aliar a esses que estão panelando", pessoa após gigantesco debate sobre o PT ser A expressão da direita NO poder (o que é ainda mais nefasto que a direita na oposição).
Mas na hora que concordou que o governo era etnocida, repressor, entreguista, neoliberal e tudo mais, mesmo assim foi lá e "se aliou" votando "criticamente".
Vai meu bem, faça um panelaço crítico.
Ou melhor: faça qualquer coisa crítica. Porque defender a direita no poder fazendo beicinho pra direita na oposição já deu, ok?
Enquanto isso o PSDB fica feliz, tendo projetos caros a ele aprovados, projetos até mais radicais e danosos que os que pregava. Parabéns aos envolvidos. Mas calma, 2018 tá logo ali, já podem afinar os discursos contra o "mal maior" e a justificar o apoio ao PT, quem sabe o partido mais pra frente simplesmente não acabe com a previdência de vez ou revogue a CLT?

Paguem pra ver.
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sexta-feira, 3 de abril de 2015

A redução da maioridade penal junto à pena de morte já é realidade nas favelas brasileiras

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Uma criança de 10 anos, Eduardo de Jesus Ferreira, foi baleada no Complexo do Alemão ontem. As suspeitas (ou certezas) são sempre as mesmas: Policiais Militares da UPP.

Sim, a foto é gráfica, mas é importante para que se entenda: É este tipo de imagem que crianças vêem quase todos os dias nas favelas brasileiras. Não, não é na Síria, não é no Iraque, não é a ISIS, é o Rio de Janeiro, é a PM carioca, é o tráfico, a milícia, é o Brasil.

Se a criança que vive na favela vê esse tipo de imagem todo dia você que lê este blog também pode ver. 

Enquanto 90% da população defende a redução da maioridade penal crianças são mortas violentamente ou são forçadas a conviver com esta realidade de medo. Podem ser mortas a qualquer momento. São submetidas desde a infância à violência, são alvos. Não tem direito nem dignidade.

E isso gera revolta.

CRIANÇA DE 10 ANOS MORTA PELA UPP NO COMPLEXO DO ALEMÃO
COVARDES, VIERAM PARA MATAR UMA CRIANÇA DE 10 ANOS.É ISSO MESMO GOVERNADOR.#SOSCOMPLEXODOALEMAO Quero ver nas #Olímpiadas2016#Rio2016 #Olimpiadas#FoxNews#Bbc#Itv#Cnn#Abc#Cbs#TheNewYorkTimes#TheGuardian#ERREJOTA#ElPaís#TheNewYorkTimes #Brasil2016#RioDeJaneiro#Rio2016
Posted by Complexo Alemao on Quinta, 2 de abril de 2015
Não estou justificando a revolta, mas apenas deixando claro que ela existe, e que há nela alguma legitimidade. Você consegue imaginar o que é ser discriminado, violentado e abusado desde criança? De ser tratado como lixo, de ver seus amigos, pais, parentes, serem humilhados, violentados e mortos pela polícia que deveria os proteger? Aceitaria passível toda a desgraça que te cerca? Uns sim. Outros não.

É lógico que a revolta acaba gerando apenas mais resposta violenta alimentando o ciclo, mas é importante entendê-la para poder debater, propor saídas.

E não estou tirando a autonomia dos indivíduos, nem todos "viram bandidos", nem todos seguem o caminho do ódio - pese muitos sentirem esse ódio -, mas acreditar apenas que estes são "ruins", que escolheram e ponto seu caminho é de uma infantilidade, torpeza e desumanidade incrível.

Vejam só o comentário de um garoto, no Facebook, numa das várias postagens sobre o assassinato dessa criança (o garoto da postagem deve ter a mesma idade da criança morta):
Se esse garoto tiver mais de 10 anos é muito. E já sente ódio.
Qual o futuro dele? Se tornar um traficante? Um assaltante? Um assassino? Acabar morto ou trancafiado numa cadeia onde irá sentir ainda mais ódio da sociedade?

É incompreensível o ódio que ele sente? Não. Incompreensível é a negação de amplos setores sociais da realidade de violência e exclusão a que crianças são submetidas. Negação da realidade seguida de pura vingança: Vamos meter mais e mais adolescentes em centros de tortura estatal para se pós-graduarem no crime e sentirem ainda mais ódio - que se voltará contra a própria sociedade.
Postagem de um rapaz já mais velho, mas no mesmo tom de revolta. A lógica dele é incompreensível?
Longe de APOIAR a violência ou respostas violentas, eu busco entender para, então, ser capaz de enxergar que TODO o sistema precisa de reforma. Educação, inclusão, direitos humanos, o fim da PM, o tratamento humano a todos, políticas de promoção de igualdade, ajuda psicológica, enfim, o pobre, o favelado tem que parar de ser tratado como marginal ou marginal em potencial, ser vigiado, violentado e deve ser tratado como... ser humano. Como todos temos de ser tratados, mas apenas poucos somos.

A redução da maioridade penal vai apenas piorar o quadro de violência, mas os defensores irão apenas lavar as mãos e, no fim, irão defender penas mais duras para crianças como esta da foto que abre a postagem, isso se não chegarem ao cinismo de comemorar: Que bom, morreu antes de poder cometer crimes.
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