segunda-feira, 27 de julho de 2015

O maior inimigo da esquerda é a própria esquerda?

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Graças a este texto, "O Brasil NÃO precisa de um novo junho de 2013", que publiquei em resposta e com algumas críticas à outro texto publicado pela Luciana Genro (com críticas à defesa dela de um novo Junho e ao projeto tosco e petista de "constituinte" e com críticas a alguns quadros do PSOL pelo apoio crítico ao PT e por - alguns - não terem sequer apoiado as manifestações em 2013) eu não apenas fui bombardeado por críticas canalhas da turma ligada à corrente interna da Luciana, MES/Juntos, que agiram como uma perfeita seita coordenada destilando ódio e inclusive manipulando meu texto, mas também fui EXPULSO de um grupo do PSOL no qual eu estava há anos.

Fui banido do grupo sem qualquer tipo de discussão, apenas pela força e vontade de uma corrente que se mostrou incapaz de dialogar críticas pontuais a alguns posicionamentos de sua líder.

É lamentável ver que à medida que o tempo passa a esquerda fica pior. Ou fica igual, sectária, se comportando como seita, incapaz de dialogar ou assumir erros. Se é verdade que o PT é um grande inimigo da esquerda hoje, a própria esquerda é sua maior inimiga.
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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Você é tucano! Ou porque não há diálogo com o petismo

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Há muito tempo que o PT se tornou uma seita. Não há possibilidade de diálogo com petistas da mesma forma que você não dialoga com um homem bomba ou com o Bolsonaro. Simplesmente não falam a mesma língua, mas apenas reproduzem ódio incongruente e inconsequente.

Há muito, ainda, que mesmo jornalistas e blogueiros menos, digamos, comprometidos, embarcaram de cabeça no dia a dia da vida da seita. Não tem mais crítica, apenas a eterna repetição do mantra "quem não está conosco é inimigo, é tucano, é tucanalha, é....".

E este é o ponto, se você não diz amém ao PT você é tucano. Só existe essa opção, não criticar e repetir o que #Stanleys da vida mandam, não importa que não faça sentido, que seja contrário não apenas à história do PT de antes de chegar ao poder ou simplesmente contra qualquer noção de decência. Discordou? É tucano.
O governista vive em uma realidade paralela

Você pode ter acabado de fazer 50 postagens contra o PSDB, continua sendo tucano no mundinho bidimensional, triste e doente dos petistas. E é bom lembrar, tudo que o PT faz é bom. Tudo é pelo bem do povo.

Corte de direitos trabalhistas? É pelo bem do povo.
Austeridade? É pelo bem do povo.
Corte de metade do FIES? É pelo bem do povo.
Trabalho escravo defendido pelos aliados ruralistas? É pelo bem do povo.

E a ladainha segue.

O jornalista e membro da seita Rodrigo Vianna recentemente cometeu um artigo no qual obviamente defende o PT do panelaço durante seu programa eleitoral com ~argumentos~ do tipo "cada vez que vejo a histeria seletiva da classe média antipovo (que tem ódio de bolsa família e detesta pobre em avião), sinto vontade de votar no PT de novo".

Passando por cima de tamanha tosquice típica da incapacidade petista de raciocinar para além do quadradinho, o nobre jornalista ainda comete o, talvez, ato falho, diz: "Gente que jamais bateu panela contra fome, dengue, falta dagua, ou corrupção de Maluf/Quercia/PSDB."

Espera, mas Maluf não é um QUERIDO ALIADO do PT? Com direito a foto sorridente e contente com Lula e Haddad? Me senti impelido a comentar com o máximo de ironia que consegui, mas notem a capacidade argumentativa da indigente intelectual que me respondeu.
Meu questionamento não poderia ter sido mais direto.

1) Maluf é aliado do PT ou não?
2) Maluf é corrupto ou não?

Como resposta, no entanto, obtive:

a) Você não tem argumentos
b) Você não entende de política
c) Você movido por "moralismo igrejeiro" que leva à (e eu consequentemente seria):
     c1) Fascismo,
     c2) ignorância,
     c3) embrutecimento intelectual,
     c4) retrocesso humano
d) Você é ignorante
e) Você é inculto
f) Você age de má fé
g) Você é purista
h) Você é ignorante político
i) Você é igrejeiro

Como consequência:
j) Eu apoio/pareço o Beto Richa
k) Eu sou tucano
l) Tenho argumentos medíocres
m) Tenho a profundidade de um pires
Reparem que, ao fim, minhas duas simples perguntas não foram respondidas, e ainda sobrou espaço para a inteligente figura comentar que Maluf foi aliado do FHC. Verdade, mas hoje é aliado do Lula, da Dilma, enfim, do PT.

Mas aí entramos na grande questão.

Ter sido aliado do FHC ou de qualquer tucano não é impedimento pra ser aliado do PT (pelo contrário em muitos casos, e lembrando que o PT é aliado do PSDB em centenas de cidades), mas isso automaticamente exime o PT de responsabilidade pelo que façam os aliados.

Em outras palavras, se algum dia você foi aliado do PSDB então o que você fizer de bom hoje tá na conta do PT, o que fizer de ruim tá na conta do PSDB.

E vai além, qualquer coisa que o PSDB tenha feito legitima, justifica ou mesmo desculpa o que o PT fizer de igual, semelhante ou mesmo pior.

O PT privatiza estradas, aeroportos, pré-sal? O PSDB fazia também e pior.
O PT agride direitos trabalhistas? O PSDB fazia também e pior.
O PT passa por cima dos direitos humanos? O PSDB fazia também e pior.
O PT rouba? O PSDB fazia também e pior.
O PT mete porrada em professores? Fingimos que não vimos... e o PSDB faz também e pior.

E por aí vai.

Tudo que o PT faz é desculpado ou desculpável pelo que o PSDB fez ou mesmo SONHOU em fazer.

Sim, porque o petista de carteirinha, o verdadeiro fanático da seita também assume o que o PSDB PENSOU em fazer, mesmo que não tenha feito, e este sonho ou pensamento é sempre PIOR do que o que o PT efetivamente faz. Isso também pode ser traduzido pela expressão "Com Aécio seria pior".

Inclusive com Aécio seria pior a retirada sem precedentes de direitos dos trabalhadores promovida pelo PT com as MPs 664 e 665 que, vejam só, o PSDB se opôs (por oportunismo, é verdade, mas se opôs).

Acho que deu pra entender, certo?

Acredito que sim, mas acrescendo mais um dado: A criação de espantalhos.

Durante votação das MPs que basicamente cortavam direitos trabalhistas num dos maiores retrocessos desde Vargas (MPs criadas por Dilma e apoiadas pelo PT) a deputada "comunista" Jandira Feghali foi vitima de machismo. Fato lamentável e a ser repudiado, sem dúvida, mas enquanto os trabalhadores eram lesados a ampla maioria dos petistas e dos "comunistas" se limitavam a tratar do machismo sofrido. Só isso. Foi um espantalho que caiu como uma luva para governistas que queriam fingir que não tinham acabado de destruir direitos de milhões de brasileiros.

O petismo é a arte do fanatismo, de desdizer a si mesmo e negar ter sido contraditório, é cuspir em bandeiras de esquerda, mas continua a se dizer de esquerda, é se aliar e governar com e para a direita, mas afirmar categoricamente que a direita é representada por todos que não apoiam o PT, é se aliar com Collor, Kassab e Katia Abreu e dizer que direita é se opor a eles... E por aí vai.

E, claro, sempre que faltar o argumento, pode-se gritar GOLPE. E, gente, como gostam de gritar golpe.
Link

Me recordo dos protestos de Junho de 2013, aquele onde os petistas gritavam em apoio à PM e defendiam repressão dizendo que quem estava nas ruas era de direita porque, sei lá, lutar por direitos, passe livre e etc deve ser uma bandeira do Bolsonaro (ele próprio da Base Aliada do PT, diga-se), surgiram petistas capazes de dizer que NUNCA o MPL tinha protestado por passe livre e contra o prefeito (no caso, o Kassab), e que só protestava hoje porque era manipulado e que não protestavam contra Alckmin.

Um adendo, é bom lembrar que mesmo defendendo repressão e até oferecendo Força Nacional (via Cardozo), petistas como Dilma usaram a repressão de Junho como campanha contra Aécio. O nível de esquizofrenia é digno de Pinel.

Não adiantou mostrar fotos, relatos até de petistas (oras, eu gravei até depoimento de um vereador petista que tinha sido ferido em protesto!) que tinham protestado, sido feridos e etc, fatos não interessam ao membro da seita, apenas sua realidade alternativa.

Enfim, não estamos diante de um partido com militância, mas sim diante de uma seita. Não se dialoga com seitas. Não é possível dialogar com seitas.

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quarta-feira, 6 de maio de 2015

"Ah, mas a culpa é do Congresso conservador"

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Fico sabendo que ontem teve panelaço de novo no Brasil... Ainda bem que eu estava dormindo. Mas acho engraçado alguns que reclamam do povo batendo panela. "São fascistas, classe média, elite branca"! Normalmente quem diz isso é ao menos classe média e com boa vontade elite branca. Alguns até fascistas (eleitores hardcore do PT, membros do MAV, etc).

Muitos, ainda, são do Team Voto Crítico, aquele que garantiu um novo mandato para Dilma desmontar direta ou indiretamente direitos trabalhistas que sobreviviam desde Vargas. Sobreviveram à Ditadura, sobreviveram a FHC, mas vão morrer com o Partido dos "Trabalhadores".

"Ah, mas a culpa é do Congresso conservador".

Mas amigo, diz pra mim quantos desses conservadores foi eleito com voto, apoio e GRANA petista? Ou melhor, grana roubada da Petrobrás, vamos deixar claro quem era a dona da grana: A Petrobrás.

O PT comprou parte da sua base ~conservadora~ (parte porque sempre tem na cola o cachorrinho PSeudoB que depois de códigos florestais da vida não tem como defender)....

Não, a ~culpa~ não é do Congresso Conservador, a culpa é de quem ajudou a montar esse congresso, é de quem pagou aos piores fascistas para ganhar apoio, é de quem desmobilizou quase completamente a esquerda e os movimentos sociais, é de quem quando parte da esquerda conseguiu se mobilizar (vide Junho) se colocou ao lado da polícia e da repressão tentando silenciar as ruas, é de quem penhorou o país pra FIFA, de quem entregou o governo efetivo para ruralistas, assassinos de indígenas, assassinos da população negra e banqueiros/empreiteiras.

Entregou, é verdade, mas nominalmente estão no poder e tem total culpa pelo resultado de suas ações.

Ações estas que abarcam também os cortes na educação, as privatizações, a situação caótica da saúde, ocupação militar em favelas, medievalismo neopentecostal imparável, etc, etc, etc... E não nos esqueçamos do corte de direitos trabalhistas, do corte até do seguro-desemprego e ainda no começo do petismo no poder, a reforma da previdência tucana (que levou à expulsão dos que depois iriam formar o PSOL)....
Enquanto o PT (direita) e a oposição (de direita) disputam quem bate mais e melhor em panelas, a realidade do desgoverno petista continua batendo...

Tudo isso com apoio entusiasmado de setores fanatizados que engolem o que lhes for mandado engolir e que ainda comete textos como se estivessem na crista da onda. Não, a ~oposição~ não virou panelas, meu caro Rovai, mas a cada batida de panelas o governo adota ainda mais profundamente o programa da oposição.

Não, não se pode jogar toda a culpa nos "aliados". Quem está destruindo a educação brasileira não são os aliados, é o PT, é Dilma, são suas políticas e decisões pessoais. Levy? Conta da Dilma. Austeridade? Conta da Dilma. Quem ofereceu Força Nacional em Junho de 2013 para calar a boca das ruas? Cardozo, do PT.

E a culpa é também de quem, mesmo hoje, continua no apoio, se baseando em lixos que envergonham o jornalismo como Brasil247, Portal Metrópole, dentre outras, ou que adota o discurso de "voto crítico contra a direita", quando quem está no poder hoje nada mais é que a direita mais nociva da história recente do país.

Como disse o Samuel Braun no Facebook:
"Concordo com tudo, só não consigo me aliar a esses que estão panelando", pessoa após gigantesco debate sobre o PT ser A expressão da direita NO poder (o que é ainda mais nefasto que a direita na oposição).
Mas na hora que concordou que o governo era etnocida, repressor, entreguista, neoliberal e tudo mais, mesmo assim foi lá e "se aliou" votando "criticamente".
Vai meu bem, faça um panelaço crítico.
Ou melhor: faça qualquer coisa crítica. Porque defender a direita no poder fazendo beicinho pra direita na oposição já deu, ok?
Enquanto isso o PSDB fica feliz, tendo projetos caros a ele aprovados, projetos até mais radicais e danosos que os que pregava. Parabéns aos envolvidos. Mas calma, 2018 tá logo ali, já podem afinar os discursos contra o "mal maior" e a justificar o apoio ao PT, quem sabe o partido mais pra frente simplesmente não acabe com a previdência de vez ou revogue a CLT?

Paguem pra ver.
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sexta-feira, 3 de abril de 2015

A redução da maioridade penal junto à pena de morte já é realidade nas favelas brasileiras

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Uma criança de 10 anos, Eduardo de Jesus Ferreira, foi baleada no Complexo do Alemão ontem. As suspeitas (ou certezas) são sempre as mesmas: Policiais Militares da UPP.

Sim, a foto é gráfica, mas é importante para que se entenda: É este tipo de imagem que crianças vêem quase todos os dias nas favelas brasileiras. Não, não é na Síria, não é no Iraque, não é a ISIS, é o Rio de Janeiro, é a PM carioca, é o tráfico, a milícia, é o Brasil.

Se a criança que vive na favela vê esse tipo de imagem todo dia você que lê este blog também pode ver. 

Enquanto 90% da população defende a redução da maioridade penal crianças são mortas violentamente ou são forçadas a conviver com esta realidade de medo. Podem ser mortas a qualquer momento. São submetidas desde a infância à violência, são alvos. Não tem direito nem dignidade.

E isso gera revolta.

CRIANÇA DE 10 ANOS MORTA PELA UPP NO COMPLEXO DO ALEMÃO
COVARDES, VIERAM PARA MATAR UMA CRIANÇA DE 10 ANOS.É ISSO MESMO GOVERNADOR.#SOSCOMPLEXODOALEMAO Quero ver nas #Olímpiadas2016#Rio2016 #Olimpiadas#FoxNews#Bbc#Itv#Cnn#Abc#Cbs#TheNewYorkTimes#TheGuardian#ERREJOTA#ElPaís#TheNewYorkTimes #Brasil2016#RioDeJaneiro#Rio2016
Posted by Complexo Alemao on Quinta, 2 de abril de 2015
Não estou justificando a revolta, mas apenas deixando claro que ela existe, e que há nela alguma legitimidade. Você consegue imaginar o que é ser discriminado, violentado e abusado desde criança? De ser tratado como lixo, de ver seus amigos, pais, parentes, serem humilhados, violentados e mortos pela polícia que deveria os proteger? Aceitaria passível toda a desgraça que te cerca? Uns sim. Outros não.

É lógico que a revolta acaba gerando apenas mais resposta violenta alimentando o ciclo, mas é importante entendê-la para poder debater, propor saídas.

E não estou tirando a autonomia dos indivíduos, nem todos "viram bandidos", nem todos seguem o caminho do ódio - pese muitos sentirem esse ódio -, mas acreditar apenas que estes são "ruins", que escolheram e ponto seu caminho é de uma infantilidade, torpeza e desumanidade incrível.

Vejam só o comentário de um garoto, no Facebook, numa das várias postagens sobre o assassinato dessa criança (o garoto da postagem deve ter a mesma idade da criança morta):
Se esse garoto tiver mais de 10 anos é muito. E já sente ódio.
Qual o futuro dele? Se tornar um traficante? Um assaltante? Um assassino? Acabar morto ou trancafiado numa cadeia onde irá sentir ainda mais ódio da sociedade?

É incompreensível o ódio que ele sente? Não. Incompreensível é a negação de amplos setores sociais da realidade de violência e exclusão a que crianças são submetidas. Negação da realidade seguida de pura vingança: Vamos meter mais e mais adolescentes em centros de tortura estatal para se pós-graduarem no crime e sentirem ainda mais ódio - que se voltará contra a própria sociedade.
Postagem de um rapaz já mais velho, mas no mesmo tom de revolta. A lógica dele é incompreensível?
Longe de APOIAR a violência ou respostas violentas, eu busco entender para, então, ser capaz de enxergar que TODO o sistema precisa de reforma. Educação, inclusão, direitos humanos, o fim da PM, o tratamento humano a todos, políticas de promoção de igualdade, ajuda psicológica, enfim, o pobre, o favelado tem que parar de ser tratado como marginal ou marginal em potencial, ser vigiado, violentado e deve ser tratado como... ser humano. Como todos temos de ser tratados, mas apenas poucos somos.

A redução da maioridade penal vai apenas piorar o quadro de violência, mas os defensores irão apenas lavar as mãos e, no fim, irão defender penas mais duras para crianças como esta da foto que abre a postagem, isso se não chegarem ao cinismo de comemorar: Que bom, morreu antes de poder cometer crimes.
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quinta-feira, 2 de abril de 2015

O não-debate da maioridade penal: O que queremos é vingança?

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Justiça ou vingança?
Aqui na Europa uma boa quantidade de países - como Espanha, Alemanha, etc - tem a maioridade penal aos 18 e em alguns casos até aos 21 usando um instrumento particular que permite que o jovem de 18-21 anos cumpra pena como adolescente em alguns casos (o sistema de justiça juvenil). A questão não é ~consciência~, é capaz de ter jovem de 14 com mais consciência que muito adulto de 40, a questão é que simplesmente NÃO funciona jogar um adolescente na cadeia e ponto.

É apenas vingança. É uma forma da sociedade se vingar e achar que resolveu um problema social apenas trancafiando adolescentes e mesmo crianças (cansei de ver gente dizendo que tem que prender até com 10 anos e etc e não foi só no Sensacionalista).

Esse é um não-debate, só faz crescer o ódio e não se resolve nada - apenas mantem aqueles que impulsionam o ódio no poder. O Brasil vê a cada dia mais os índices de criminalidade crescer - lembrando que 20% dos homicídios forma causados pela PM, mas aí ninguém fala, ninguém exige penas mais duras pra PM e etc, joga-se pra debaixo do tapete - e no que a cadeia resolveu?

Temos a terceira população carcerária do mundo e somos um dos países mais violentos do mundo. Será que ninguém parou pra pensar nisso? Ou é apenas sede de vingança?

Porque o debate não é sobre o fim da violência policial? Sobre o fim do exército em favelas? O fim do genocídio da população negra? Porque não se discute que o filho branco e rico do Eike pode matar que nada acontece com ele - e ele tem mais de 18 anos! -, mas querem mandar pra cadeia um adolescente preto e pobre de 16? Quantos filhos da elite vão presos nesse país, independentemente da idade? Quantos deputados corruptos vão presos?

A esquerda

É lógico que parte da culpa nesse debate raso é da esquerda (de setores, que fique claro) que se recusa a debater com a sociedade a questão. Há uma percepção generalizada de impunidade, há de se lidar com isso. "Ah, mas é uma percepção errada", e daí? Se existe a percepção é preciso lidar com ela.

Muitas vezes a esquerda adota posições puristas, não dialoga, porque dialogar seria "conversar com reaças", então estamos mal quando mais de 90% da população defende redução da maioridade penal e são todos tratados uniformemente como reaças não dialogáveis. Nos fechamos no nosso mundinho.

Algo que me incomoda muito é o papo que infelizmente vem crescendo no seio da esquerda de "antipenalismo" ou "abolicionismo" em uma versão tupiniquim assustadoramente torpe, infantil, que me lembra muito as esquerdas dos anos 60-70 que diziam que quando a revolução chegasse problemas como racismo, machismo e homofobia (isso quando viam problema na homofobia) se resolveriam por mágica com o "novo homem" que iria surgir. Entrementes, deixavam de lado todas estas lutas "menores".
Estado Laico? Onde?

É o que acontece hoje com o debate sobre maioridade penal e cadeias.

Um grupo de iluminados que acha que todos os problemas se resolverão nesse futuro maravilhoso e que esquecem da realidade e do debate agora. E se recusam a debater, aliás, caso você não concorde com seus postulados.

E os presídios?

Temos um problema principal, na verdade dois, quando se faz uma pergunta simples: Para que existe a pena?

Se a resposta for "para ressocializar o indivíduo além de para fazê-lo pensar no que fez e também para garantir a segurança da sociedade e dele pró
prio" então temos:

1) O tempo em si não quer dizer nada, ou seja, o cara pode se recuperar em 1 ano, pode se recuperar em 8 anos, pode não se recuperar.

2) mas o principal é, fazemos algo para que haja recuperação? Como são as cadeias e Fundações Casa? É possível recuperar alguém ali, é esta a intenção?

Sem começar por este ponto, pode botar a maioridade aos 2 anos de idade e prisão perpétua, só vai piorar.


Enfim, reduzir a maioridade não resolve absolutamente nada. Menos de 1% dos crimes hediondos são cometidos por menores, a mídia, no entanto, os supervaloriza. Este 1% tem que ser tratado, lógico, mas uma punição coletiva à toda a juventude (e quase exclusivamente à pobre e negra) é a solução? Nos sentiremos vingados?

Quando, depois de algum tempo, a redução para 16 anos não resolver o problema, mas piorá-lo, apenas baixaremos para 14? 12? Brigou no parquinho do jardim de infância pega 6 meses em Pedrinhas, aquela cadeia MARAVILHOSA no Maranhão onde presos cortam as cabeças uns dos outros e são tratados como animais?

Soluções?

É tão difícil enxergar que a solução do problema passa pela humanização das cadeias que precisam ser entendidas não como um depósito de corpos e de "marginais", mas sim como um espaço de ressocialização, educação e de recuperação?

Crianças precisam de amor, compreensão, educação, inclusão, assim como adultos. Não se trata de passar a mão na cabeça de quem comete crimes,  mas de estender nossa humanidade a eles. De puni-los (talvez "punir" não seja um bom termo, mas é o que tem pra hoje), sem dúvida, mas não de nos vingar ( e por "punição" não falo apenas em fechar na cadeia, mas como um conjunto de medidas que vá além, privar a liberdade não é nem de longe a única forma válida de agir, na verdade deveria ser a última).

"Punição" não é apenas coloca na cadeia, não é torturar, é também um conjunto de medidas socioeducativas que garantam a dignidade e o futuro desse menor.

A solução da criminalidade entre jovens não passa por enfiá-los em prisões para que se graduem e pós-graduem no crime, e sim em evitar de todas as formas possíveis que cometam o crime, os humanizando, dando oportunidades na vida, não os submetendo a ocupações militares na porta de suas casas e, caso cometam o crime, que tenham a possibilidade de se arrepender, de serem educados, de serem aceitos e reinseridos na sociedade e não serem estigmatizados e tratados como animais.

Prestem atenção à imagem que abre esta postagem. Busca-se justiça ou apenas vingança? O filho dos dois que seguram o cartaz voltará à vida se o menor for para uma cadeia como adulto? Não seria melhor pensar em formas deste jovem encontrar outro caminho, se recuperar e também permitir que outros sigam o exemplo, mas não seu caminho para o crime.

Sim, eu sei e concordo que o jovem não se vira para o crime ~porque quer~, há muitas variáveis, mas ENTENDER isso não significa simplesmente desprezar a necessidade de justiça - que não necessariamente é uma pena, uma prisão, mas educação, medidas efetivamente socioeducativas e etc.

Enfim, é preciso responder, ou ao menos dialogar com a sociedade, buscar entender os lados - entender não significa concordar, que fique claro - e ser capaz de impor uma agenda tendo ao menos algumas respostas e propostas viáveis.

Nossas prisões são centros de tortura superlotados. Imaginem o que vai acontecer se colocarmos mais e mais jovens lá. Apenas imaginem.

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terça-feira, 31 de março de 2015

"Direitização": De alarmismos à responsabilidade da esquerda

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Paulo Arantes, durante o encontro dos seminários de quarta que acontece na FFLCH-USP ao qual fui convidado na semana passada pra expor imagens e impressões sobre a "nova direita" no Brasil: "Vendo o vídeo do Caio eu me lembrei (eu era militante na época) da marcha da família com deus em 64 que também foram bem numerosas e bem impressionantes. Depois do golpe ainda houve uma outra marcha de confraternização. Então é a primeira vez que eu vejo isso vivo novamente em 50 anos. Portanto eu vi a direita desfilando, mas era uma direita que não tem nada a ver com
essa, eram senhoras de salto alto, padres, advogados, donas de casa bem vestidas, com algumas panelas, terço... Aquilo não metia medo em ninguém, uma semana antes do golpe nós ficamos impressionados com o número de pessoas na rua, que dava de 10 a zero no comício da cut do dia 13... Mas era só, o resto não metia medo. Hoje vendo essas imagens que o Caio escolheu, aqui dá medo e a impressão é que a repetição é
muito mais sinistra do que a farsa. E assusta muito mais porque não existe o outro lado, não tem esquerda e nós estamos sozinhos esperando sermos linchados quando dermos a cara pra bater. Estamos sozinhos e por outro lado tem uma energia social solta aí... Bom, isso é uma tese clássica da esquerda européia dos anos 30, do marxismo europeu a respeito do fascismo que diz que: o fascismo é a expressão de uma derrota da esquerda, quando o fascismo surge nos anos20 na Itália é quando a esquerda já perdeu a energia revolucionária. O fascismo era a pulsão plebéia à todo vapor pra acabar com aquilo. Tinha crise, tinha desemprego, tinha humilhação, tinha classe operária desorganizada, tinha guerra, tinha tudo. A massa fascista era uma massa revoltada e por isso ela foi organizada. Se você tem uma massa revoltada, proletária e que vai te massacrar é porque você perdeu. É isso que vai acontecer conosco agora, não há dúvida... A outra coisa que nos dá medo é o que nós perdemos. Todos os "Renans"que estão aí é o que nós perdemos. A gente precisa saber o que faz isso." via Caio Castor, no FB
O comentário do professor Paulo Arantes descrito pelo Caio Castor é alarmista, mas em geral correto.

A leitura geral me parece correta, de fato é mais preocupante uma marcha de direita hoje do que em 64 onde as coisas eram mais demarcadas (pese não poder dizer apenas que a marcha do dia 15 foi só de direita ou majoritariamente pedia ditadura, tinha muita gente mais perdida que carioca em tiroteio), e sem duvida a direita está onde está por culpa da esquerda, que virou direita. 

É claro que, no entanto, não podemos resumir ou reduzir a marcha do dia 15 à "direita", tampouco a "golpismo", mas é fato que uma ampla maioria se não era de direita, subscrevia crítica ou acriticamente ao pensamento dos grupos que convocaram a marcha. Aí está o nó, a direita está liderando o centro.


Sem dúvida muitos ali são disputáveis, mas quem está fazendo esta disputa?

E não quero me repetir, mas é óbvio, o PT é o grande responsável por essa direitização e também pela situação ter chegado a este ponto, mas não só.

Setores da esquerda "radical" também tem responsabilidade, por um discurso descolado do povo, que não consegue dialogar com divergências, não conseguem dialogar sobre pautas específicas com a maioria da população (oras, não conseguem discutir entre si! É um tal de jogar pedra à mínima discordância...). Mas, enfim, a culpa é nossa enquanto esquerda, seja da que se vendeu, seja da que não consegue dialogar, seja da que se limita a ver o barco passar.


É difícil pensar em um caminho ou caminhos para superar a atual crise, mas sem dúvida este passa pela total e completa superação do PT. Sem remorso, sem olhar pra trás. E, claro, pelo combate franco às forças de direita e fascistas que crescem.

E por "forças de direita e fascistas" não me refiro apenas à grupos pró-Ditadura, que felizmente AINDA são pequenos, mas que devem ser ferozmente combatidos, mas também aos grupos neopentecostais que estão hoje formando exércitos como os Gladiadores do Altar, que saem por aí atacando praticantes de religiões afro e seus centros, perseguindo os discordantes, espalhando medievalismo e ignorância, incutindo ódio religioso e buscando controlar a política brasileira e impor sua visão deturpada de mundo à constituição e à população.

Se estes grupos não forem parados agora, poderemos não ter nova chance no futuro. Se hoje os evangélicos são 20% da população (e os fundamentalistas provavelmente metade disso e obviamente estes são os inimigos) e já praticamente controlam o congresso, imaginem se não forem impedidos de pregar seu ódio.

Mas e o resto da esquerda?

Não faz muito tempo chegou até mim um manifesto em que pese algumas críticas ao PT (e obviamente ao PSDB), não conseguia superar o sentimento enraizado de amor ao PT ou de que se deve algo ao PT, um saudosismo dos tempos de esquerda do partido, uma insistência em não enxergar o óbvio e a realidade e de embarcar no discurso fácil dos fundamentalistas neoPTcostais de que ainda há alguma disputa a ser feita no e pelo partido.

No manifesto, após críticas, o velho morde e assopra. O PT é responsável pela crise da Petrobrás, sem dúvida ~subtraiu~ valores da empresa, MAS (notem o "mas"), o PSDB... Não, meus amigos, não tem "mas". O PSDB se pudesse privatizaria a empresa sem dó e dividiria o lucro com seus amigos (como já o fez em outros caoss), mas o PT vem efetivamente privatizando lentamente a empresa e, no meio tempo, tem se refestelado com ampla corrupção.

Não é uma questão de escolher, é necessário denunciar igualmente AMBOS os partidos e seus respectivos aliados, sem continuar no joguinho de encobrir e escolher o "menos pior". De quebra, o texto ainda busca dar um tom passivo aos atos do PT, como se o partido tivesse sido LENIENTE com os roubos da Petrobrás e não parte ativa, enquanto mandantes, da roubalheira.

A linguagem diz muito. A escolha das palavras é fundamental. Recuar ou buscar de qualquer forma justificar ou acobertar, ou mesmo diminuir, o papel do PT na direitização do país é bater palmas para este processo. Tentar criar alternativas enquanto se passa o pano pro PT equivale a enxugar gelo e até que entendamos isso, é melhor nem insistir, pois todo e qualquer projeto estará fadado ao fracasso.
"(...) Camaradas, reconheçam agora que esse 'mal menor'
Que ano após ano foi usado para afastá-los de qualquer luta
Logo significará ter que aceitar os nazistas.
Mas nas fábricas e nas filas dos desempregados
Vimos a vontade de lutar dos proletários (...)"
Bertolt Brecht, 'Quando o fascismo se tornava cada vez mais forte' In: Poemas 1913-1956, 2000 [1967], p. 95.
Com o perigo de mais uma vez me repetir, fica o apelo: Superem o PT. Parem de justificar, de "entender" os atos do partido. Não fiquem excitados porque no mar de lama surgiu um Janine Ribeiro que, sozinho, irá salvar a pátria. Não, ele não vai.

Não se trata te ~torcer contra~ mas de ser realista. Uma andorinha não faz verão, um Janine Ribeiro não fará a revolução na educação. Se ele conseguir ao menos brecar parte das "reformas" que Dilma vem fazendo ou debatendo até aqui (chegando ao ponto de aventar terceirizar a contratação de professores federais) já será um ganho, mas ainda assim, mais por obra dele que do PT que, sem dúvida, se vendo nas cordas e atacados por todos os lados, da direita à esquerda, resolveu fazer um aceno contando com a boa vontade dos ainda adeptos da tese do mal maior (ou mal menor, para ficarmos com o velho Brecht).

Aceitem de uma vez por todas que não há salvação - a não ser que você acredite na volta de jesus e afins, porque se acredita no PT.... - e vamos construir alternativas antes que seja tarde.
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