terça-feira, 28 de julho de 2009

Ingushetia, Chechênia e a Rússia atual

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Este post deveria ter sido publicado há muito tempo mas continua atual, logo, ainda cabe sua publicação.

Serve, enfim, como introdução ao meu primeiro post no blog Trezentos, amanhã, sobre a situação do Cáucaso Norte como um todo em tempos de conflitos, insurgência islâmica em detrimento do antigo movimento nacionalista de cunho étnico das décadas passadas e repressão.

Este post, por outro lado, trata da troca de governante na Rep. Aut. da Ingushétia, saiu Zyazikov, entrou Yevkurov, ha coisa de 3-4 meses e da escalada de violência na região. Trata ainda da repressão contra a população Chechena comandada por Kadyrov e aplaudida pelo Kremlin.

A parte que ainda permanece relevante toca na sensível questão da falta de democracia nas Repúblicas Autônomas. Putin aboliu o processo de eleição direta para os governantes passando ele - e agora Medvedev - a indicar algum de seus protegidos para os cargos mais altos das repúblicas autônomas.

O que se vê é um movimento pensado e calculado para neutralizar e esmagar qualquer foco não só de resistência mas também tentar sufocar o sentimento nacional das minorias e destruir suprimir suas culturas, línguas e costumes.

O primeiro passo foi o fim das eleições diretas e a indicação vinda do Kremlin, o segundo passo a abolição do direito das repúblicas legislarem sobre seu sistema educacional, impondo o fim do ensino das línguas minoritárias, da cultura e da história dos povos não-Russos.

Em meio à tudo isso, constante repressão e perseguição, intimidação e assassinato de lideranças dos Movimentos Sociais, Sindicatos e de grupos de Direitos Humanos.
-------------------------Não é surpresa que a Ingushétia tenha chegado até o atual nível. Mafiosos colocados por Putin no poder tomaram conta tanto da Ingushétia quanto da vizinha Chechênia.

Agora Putin (ou Medvedev, na verdade não faz diferença) resolveu trocar o governador da Ingushetia, entra o coronel e herói Russo-Ingushe Yunus-Bek Yevkurov e sai o impopular Murat Zyazikov, depois deste ter sido acusado de ser o mandante do assassinato nas mãos da polícia local do repórter opositor Magomed Yevloyev, culminando com diversos protestos contra o governante.

Vale lembrar que, na Rússia, não existem mais eleições diretas para governador, desde que Putin, em 2004, as aboliu. Uma tentativa absurda de centralização do poder e diminuição da autonomia das mais diversas regiões e Repúblicas Autônomas que compõem o país.

Putin e sua máfia, obviamente, tomaram o poder de assalto. Não encontram qualquer resistência em nível federal e agora tampouco em nível regional.

Resistência meramente política, obviamente, apenas em "termos eleitorais", porque se conseguirem até certo ponto "pacificar" a Chechênia, colocando um verdadeiro genocida no poder que passou a eliminar de todas as formas possíveis a resistência Islâmica e não-Islâmica, o mesmo não aconteceu com a Ingushetia.

Por "pacificar" compreendam o óbvio, Kadyrov, presidente da Chechênia iniciou uma era de terror, de perseguições e repressão brutal e até certo ponto conseguiu diminuir a efetividade da resistência ao aplicar uma política de constantes abusos dos direitos humanos, invasões em casas durante a noite, tortura, intimidação e ataques frontais e orquestrados contra qualquer insurgente ou indivíduo que pareça insurgente - ou seja denunciado como tal, em um Estado-policial dominado pelo denuncismo e medo.

Na verdade, os "terroristas" apenas mudaram sua base de operações e contaram com a adesão de centenas de Ingushes insatisfeitos com sua situação de pobreza, exclusão e situação de opressão frente aos Russos.

Os Ingushes são parentes muito próximos dos Chechenos, é de se esperar um mínimo de solidariedade com a luta dos vizinhos. Soma-se a isso o desemprego e desilusão além da pobreza extrema da população e, por fim (em teoria, pois é difícil saber se este fator alimenta de forma decisiva ódio contra os russos) há o conflito latente entre Ingushes e Ossetas que remonta o séc. XIX, onde os primeiros se acham desprivilegiados pelos russos contra o segundo grupo, culminando com a anexação por parte da Ossétia do Norte de uma boa porção do território Ingushe ao longo dos anos.

O quadro para o surgimento e fortalecimento de grupos que pegam em armas contra o governo Ingushe e Russo é mais que propício.

Dentre os muçulmanos, especialmente após o fracasso dos projetos nacionalistas de cunho Socialista ou Pan-Arabista dos anos 60-80, houve um fortalecimento tremendo da religião como política, como arma e na Ingushétia e região do Cáucaso, de maioria Muçulmana, não seria diferente.

A resistência, dita terrorista, dos grupos minoritários à falta de democracia, condições de trabalho e vida e etc parece a única opção e não há como negar, em primeira vista, essa opção.

A única solução encontrada pelos governos, Ingushe, Russo e Checheno, é a franca repressão, as torturas nos porões das forças de "segurança" e a opressão ainda maior das minorias...

Até quando este cenário durará?

Dificil saber mas Putin e seu cãozinho Medveded, pelo jeito, esperam manter o povo Russo e demais minorias na coleira a todo custo. Jornais independentes são raridades, redes de TV independentes ou rádios livres são duramente censurados e a maioria obrigada a fechar e repórteres com o mínimo de isenção, como Yevloyev, Politkovskaia e etc são mortos sob circunstâncias "suspeitas", para dizer o mínimo, ainda que todos saibam os rais mandantes e as razões.

Por mais que seja visível uma melhora nas condições econômicas e sociais de uma boa parte da Rússia, em especial na região oeste, próxima às grandes cidades de Moscou e São Petersburgo e também nas regiões industriais dos Montes Urais, a atual crise mundial vem minando esse crescimento, o desemprego começa a ameaçar a indústria, várias cidades do interior russo começam a ver suas populações minguarem, o alcoolismo ainda é endêmico e não dá mostras de ceder e no Cáucaso a solução é a mais "simples": Oprimir, perseguir, censurar e, não dando certo, matar.
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Comentários
8 Comentários

8 comentários:

Maurício Caleiro disse...

E por que será que a imprensa e as grandes potências, sempre tão preocupadas com o que chamam de "tendências totalitárias" de Chavez, Morales & cia, faz deconta que nem viu tanto autorismo? Certamente não é pela posição econômico-estratégica da Rússia, claro que não, imagina!

Raphael Tsavkko Garcia disse...

Eu tenho uma teoria, na verdade mais de uma. Primeiro, porque a região não importa para ninguém fora da Rússia.

Além disso, ainda existe uma certa aura em torno da Rússia como potência ou ao menos um gigante a não ser molestado. A Rússia está no CS, tem proeminência ainda e Putin é um mafioso que controla a mídia em quase sua totaliddade por lá. Não é alguém para se brincar.

Quanto À mídia especificamente européia, a região já é muito sacudida por conflitos étnicos, senão por movimentos separatistas e autonomistas relevantes, não seria boa política defender regiões separatistas da Rússia quando se tem problemas semelhantes no quintal.

No caso da imprensa da AL, falamos do PIG e também de uma região longe demais para que o público médio se importe.

Dentre outros fatores mais!=)

Petronius disse...

Mais um russófobo... pelo menos é coerente no combate ao nazissionismo.


Paz na terra aos homes de bem.


Petronius.

Raphael Tsavkko Garcia disse...

Russófobo? Não, de jeito algum. Eu sou apaixonado pela história e lingua russa. Cheguei a cursar 6 meses de Russo e ao menos sei ler o alfabeto!=)

O que eu não tolero é terrorismo de Estado, repressão. E isso os Russos fazem "muito bem" no Cáucaso e, querendo ou não, tem uma máfia no poder.

Criticar não é ter fobia.

Aninha Terra disse...

Olá Raphael, tudo bem?
Você poderia me indicar outros textos ou sites sobre a situação no Cáucaso Norte, estou pesquisando sobre as mulheres denominadas Viúvas Negras e com a questão re-surgindo novamente com o atentado ao metrô de Moscou...cheguei aqui no teu blog!

abraços e desde já obrigada!

Raphael Tsavkko Garcia disse...

Aninha: ainda semana passada escrevi o seguinte texto que faz referência à outro sobre o Cáucaso que pode te interessar: http://tsavkko.blogspot.com/2010/04/os-ataques-ao-metro-de-moscou-ao.html

Quanto à Região, você talvez encontre muita informação no globalvoicesonline.org e através do site podes entrar em contato com o Onnik Krikorian que é o editor do Cáucaso e com a Veronica Kokhlova, editora de Rússia que podem te passar muita informação, além dos links e artigos que já estão no site.

Outra boa pedida é procurar informações em sites russos em inglês como as agências Itar-Tass ou Ria-Novosti e ainda a Kavkaz Center, pró-guerrilha.

Anônimo disse...

Rafael,
Parabéns pelo blog que eu descobri faz pouco tempo..
Sobre o Cáucaso, estou lendo uma obra que retrata bem o seus cometários sobre o tema. O nome do livro é "Filhos de Grozny", da mesma escritora " O Livreiro de Cabul" Asne Seierstad.
Pode parecer loucura, mas tenho vontade conhecer essa região.
Grande abraço,

Gustavo

Anônimo disse...

Me desculpe.... retificando o nome do livro: Crianças de Grozny..

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