terça-feira, 3 de agosto de 2010

Blogs, Internet e democracia no Irã

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Nos últimos oito anos, vários blogueiros e ativistas iranianos vem sendo vítimas de perseguições e prisões por causa de seus trabalhos e opiniões
Por Raphael Tsavkko Garcia

Os nomes Hossein Derakhshan, Hussein Rongah Melki, Majid Tavakoli, Koohvar Godarzi ou Omid Reza Mir Sayafi provavelmente não significam nada para os brasileiros, mas são um símbolo de resistência para o povo iraniano.

Os quatro primeiros encontram-se presos, em um regime de reclusão sufocante. O último está morto. Em comum, o fato de serem blogueiros e líderes estudantis, e também o de estarem ou terem sido presos, torturados, terem passado por greves de fome e por humilhações. Tudo pelo simples direito à liberdade. E estes cinco são apenas parte dos blogueiros e ativistas presos por expressarem suas opiniões.

Derakhshan, mais conhecido como Hoder, está preso desde 1 de novembro de 2008 e apenas recentemente começou a ser julgado. Ele é um dos principais e mais influentes blogueiros do Irã e, como tal, constantemente vigiado e perseguido pela temida polícia local.

Majid cometeu o terrível crime de lutar pelos direitos humanos e ser uma das principais lideranças jovens nesta área. Godarzi foi preso por pedir aos leitores de seu blog para o ajudarem a parar uma execução. Melki era uma das principais lideranças do projeto Iran Proxy, que luta contra a censura e filtragem de conteúdo no pais.

Sayafi tinha 29 anos de idade morreu na prisão de Evin, em Teerã, em 18 de março de 2009. Era blogueiro, jornalista e dissidente. Ousou levantar a voz contra a opressão.

Tavakoli, preso em dezembro de 2009, foi fotografado em roupas femininas pelas autoridades. Uma tentativa de humilhá-lo que, como resposta, foi seguida por uma onda de blogueiros e ativistas postando fotos vestidos de roupas femininas, num sinal claro de apoio.

Nos últimos oito anos, vários blogueiros e ativistas vem sendo vítimas de perseguições e prisões por causa de suas opiniões e trabalhos. Alguns foram presos por poucos dias. Outros foram condenados a vários anos e, ainda, alguns não aguentaram até o fim de suas sentenças e morreram nas prisões sem sequer a chance de um julgamento justo.

As acusações costumam ser as de fazer propaganda contra a República Islâmica, a de se associar a elementos provocadores ou agentes estrangeiros ou a de insultar líderes religiosos. Em praticamente todos os casos as acusações não passam de farsas pessimamente apresentadas.

A onda de prisões de blogueiros teve início em 2003, com a prisão de Sina Motalebi – hoje exilado na Holanda -, ainda sob a presidência de Mohammad Khatami, considerado por muitos como um reformista, e apenas cresceu desde que Ahmadinejad assumiu o cargo, em 2005. De lá para cá, dezenas de blogueiros foram interrogados, presos e mortos enquanto lutavam pro uma ampla reforma na República Islâmica do Irã.

Há quase uma década os governos conservadores vêm prestando bastante atenção na internet e em seu potencial transformador. Durante o conturbado processo eleitoral de 2009, em que Ahmadinejad foi acusado de fraudar as eleições para vencer seu adversário reformista Mir Hossein Mussavi, o Twitter e outras plataformas eleitorais foram o fio condutor da revolta.

Em meados de junho, o blog jornalístico coletivo Huffington Post iniciou sua cobertura em tempo real (liveblogging) dos protestos pós-eleitorais do Irã. Desde então, uma forte censura foi baixada no país, contando com a expulsão de jornalistas credenciados para cobrir o processo eleitoral e, para os que puderam ficar, um cerco feroz contra suas atividades, proibição de sair às ruas e de divulgar o que acontecia no país: Protestos violentos entre manifestantes e a polícia e a famigerada Milícia religiosa Basij.

Através de blogs, Twitter, Facebook, Youtube e outras redes sociais, a população iraniana pôde expressar seu descontentamento com a situação, não só eleitoral, mas social de um país governado por milícias religiosas e constantemente sofrendo boicotes e sanções

Aqueles blogueiros e ativistas engajados em divulgar as manifestações e em encontrar formas de burlar a censura foram brutalmente perseguidos e os que já estavam presos se viram em uma situação ainda mais difícil.

Através de sites como o Global Voices Online, e comunidades no Facebook, amigos, familiares e ativistas buscam mostrar a o mundo o que acontece, na tentativa de angariam apoio e pressionar a comunidade internacional a agir e intervir.

Hamed Sabe, foto-blogueiro preso recentemente é um exemplo desta mobilização. Preso sem qualquer tipo de acusação conhecida, seus familiares e amigos iniciaram uma campanha mundial pela sua libertação e pedem, no mínimo, um julgamento justo.

Outro caso emblemático é o de Sakineh Mohammadi Ashtiani. Condenada a morte por apedrejamento por supostamente ter cometido aldutério, esta iraniana de 43 anos encontrou salvação – ao menos temporária – na pressão internacional tanto através da mídia tradicional, quanto da mídia social e de ativistas espalhados por todo mundo. Seus filhos e amigos criaram um site para dar visibilidade ao seu caso e a notícia logo se espalhou. Da mesma forma que o Twitter serviu para mobilizar as massas em apoio à Revolução Verde de Mussavi, a rede serve agora para salvar a vida de uma mulher comum.

Apesar de pequeno em termos de conquistas, o poder da internet no Irã vem sendo sentido e começa a assustar seriamente os donos do poder. A mobilização em prol dos direitos humanos e da liberdade de expressão no país vem crescendo a olhos vistos e, se ainda não foi capaz de transformar profundamente a sociedade, ao menos consegue espalhar a ideia de democracia pelo mundo e denunciar os abusos e crimes cometidos contra o povo.

Raphael Tsavkko Garcia é jornalista e blogueiro: http://tsavkko.blogspot.com


Publicado originalmente no site da revista Caros Amigos, em 30 de julho de 2010.
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Comentários
3 Comentários

3 comentários:

AF STURT disse...

A oposição não é tão santinha como vc colocou.Espero que saiba que posição está divulgando!

Gelo disse...

Parabéns polo artigo, fai pensar.

Raphael Tsavkko Garcia disse...

AF: Sei sim. Tenho contato com iranianos e dissidentes e o Ahmadinejad é um ditador brutal.

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