sexta-feira, 22 de abril de 2011

SBT e Amor e Revolução - Liberdade e censura

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Ontem, durante o depoimento final da novela Amor e Revolução (mais que recomendada a todo militante pelos direitos humanos que conhece ou quer saber mais sobre a Ditadura Militar), o ex-guerrilheiro e comandante da ALN (Aliança Libertadora Nacional, do grande Marighella) Carlos Eugênio da Paz, o Comandante "Clemente", sem papas na lingua, denunciou o que alguns sabiam, mas muitos preferiam ignorar: Houve amplo apoio de setores empresariais ao Golpe.

Tive o imenso prazer de conhecer o Comandante durante um evento na USP ano passado, quando ele disse a todos, não sem orgulho, ter sido o responsável pro justiçar o famigerado Boilesen (do documentário Cidadão Boilesen), que sadisticamente assistia às sessões de tortura no DOPS e se divertia com o sofrimento dos torturados.

Durante tal evento, Clemente (Carlos Eugênio) não só admitiu com orgulho seus atos em defesa do país e contra a Ditadura, como ainda deu nome aos bois, das empresas que financiavam a tortura, como por exemplo o Grupo Pão de Açucar, Grupo Ultra, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez dentre outros (vale a leitura de artigo da jornalista Lúcia rodrigues sobre o assunto).

Infelizmente não consegui gravar sua palestra, apenas a do também ex-guerrilheiro Ivan Seixas.
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Alguém gravou o vídeo, felizmente, a usuária "deaconti" do Youtube:




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Mas, enfim, pese a coragem do SBT em se impor frente aos milicos que ainda insistem em negar a realidade de tortura, falta de democracia e repressão - chegaram até a propor abaixo-assinado contra a novela, o que apenas reforça o caráter ditatorial desta corja - o canal se acovardou frente às verdades ditas por Clemente.

No momento em que Clemente iria dar o nome aos empresários responsáveis por apoiar a Ditadura e por organizar uma caixinha de onde saia o dinheiro para pagar a "recompensa" pela captura de "subversivos", o vídeo foi abruptamente cortado, toscamente editado (reparem no vídeo aos 1:16).

Ponto mais que negativo para o SBT que se acovardou em um momento chave. Podemos aceitar que milicos saudosos da Ditadura, como Curió e Jarbas Passarinho tenham seu espaço nos depoimentos finais da novela.

Não podemos nos rebaixar ao nível deles, que nos amordaçaram por décadas. Que falem suas mentiras, serão respondidos pela história. Mas é bem diferente de você abrir o espaço e ao mesmo tempo limitar o que se pode falar, censurar, como aconteceu com o Clemente.

Resta a esperança de que o SBT lance um (ou uma série) de documentário(s) com todo o material recolhido, sem cortes ou censura, e nos ajude a contar a história do nosso país. Fica, porém, aquela sensação de que, mesmo depois de tanto tempo e até mesmo com a evolução que a novela representa, ainda temos medo, ainda temos esqueletos no armário e que não é seguro contar toda a verdade.

Mas, de qualquer forma, não podemos negar a importância histórica da novela. Pouco importa se algumas atuações são macarrônicas, se a trama por vezes parece didática demais no uso de termos marxistas e mesmo na tentativa/necessidade de se explicar o contexto histórico e os termos comuns para a militância, mas não para o povo.

Não se trata de uma novela da Globo, mas isto carrega em si noções positivas e negativas.

Por um lado, não temos a qualidade da atuação de alguns medalhões da Globo, ou a riqueza de cenários e figurino, mas por outro lado temos personagens principais que não vivem em mansões com 10 quartos ou pobres e ricos estereotipados e todos devidamente em seus lugares (sic).

Amor e Revolução vem em um momento chave, em que temos um governo (mais ou menos) de esquerda, comandado por uma ex-guerrilheira e presa política e no exato momento em que a OEA nos obriga a revisar a famigerada e unilateral Lei da Anistia.

Estamos ainda em pleno momento de discutir a abertura dos Arquivos, em pesadas campanhas contra o sigilo eterno e, tudo isto junto, chega uma novela que funciona como um abre-alas para a verdade.

Sim, não podemos fingir que não existam interesses empresariais (do Silvio Santos e de patrocinadores) sobre a novela, que tudo é lindo e maravilhoso, mas seria tolice e "esquerdismo" demais não reconhecer seu valor e o timing ímpar.
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Comentários
2 Comentários

2 comentários:

Anônimo disse...

Sim, em seu livro, o tal "clemente"(deve ser piada...) conta com detalhes as motivações de seus justiçamentos, inclusive de companheiros, e com igual orgulho... isso parece loucura, vindo das mesmas vozes que clamam pelos direitos humanos... P.S: Pela primeira vez vi uma sociedade aceitar um "tribunal revolucionário" e panfletos como meios para Justiça! Vcs só podem estar loucos!!!

Raphael Tsavkko Garcia disse...

Você confunde Direitos Humanos com Resistência. Estamos falando de um Estado repressor e assassino que desrespeita sistematicamente os direitos dos cidadãos, logo, torna a resistência algo legítimo. Direitos humanos defendem o indivíduo de ser torturado, não morto em determinadas circunstâncias.

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