terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Quando morre um cão: A miséria humana não nos comove mais?

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Durante boa parte do fim de semana o assunto mais comentado foi o da morte cruel de um cãozinho da raça Yorkshire pelas mãos de uma suposta psicóloga enfermeira e mãe. Sem dúvida, uma psicótica que precisa de tratamento urgente e que mereceria passar um tempo na cadeia, mas que, infelizmente e se muito, paragár multa pelo seu crime.

Deixo claro de início meu repúdio a toda e qualquer forma de maltrado de animais. Quem tem a capacidade de espancar até a morte um cãozinho, é capaz de cometer atrocidades iguais com seus semelhantes. Como agravente ao crime da mulher, aparentemente seu filho observava tudo e, sem dúvida, deve estar traumatizado.

Não postarei aqui nenhum vídeo ou foto dos atos ou muito menos da mulher, não sou defensor de linchamentos públicos - retornarei a este ponto.

Repasso um trecho de texto publicado no Eleições Hoje (Homofobia Já Era) do All Moon do qual concordo unicamente com o trecho selecionado:
Tal barbárie causou uma comoção nacional. A imagem de um animal sendo sacrificado em nome da crueldade humana (talvez, a única forma de crueldade existente na natureza), com a agravante de este ato de boçalidade extrema ter sido presenciada por uma criança, resta-se gravada até mesmo no subconsciente daqueles que (como eu) não tiveram coragem de assistir a este documento comprovante da miséria humana.Entretanto, este fato nos revela um outro elemento indicativo da miserabilidade afetiva que parece ser a marca das sociedades “civilizadas” neste Terceiro Milênio. A estupidez bárbara perpetrada contra um cão conseguiu causar mais comoção do que as mortes igualmente cruéis de centenas de homossexuais em todas as partes deste país.
De resto, deixo claro minha discordância do autor quando este afirma que a comoção em torno da morte do cão seria hipócrita, porque haveria mortes mais "importantes" ou significativas acontecendo, ou mesmo vidas mais importantes. Toda vida é importante e toda comoção é legítima. E tampouco uma morte é - ou deveria ser - ofuscada por outra.
Mas não querendo diminuir o absurdo que é a violência contra animais, o Francisco Aragão Azeredo (@chcapet) acertou em cheio, no Twitter:
"Se dessem à morte do Alexandre Ivo metade da atenção que estão dando ao yorkshire homofobia já era crime e Malafaia estava na cadeia. DESCULPA se eu acho que vidas humanas valem mais que vida de cachorro. Pra TUDO na vida existem gradações, torturar e matar um garoto de 14 anos É SIM pior que maltratar cachorro, por pior que isso seja"
Matar e torturar seres humanos é MUITO pior que fazer o mesmo com animais, por mais que seja atitude igualmente deplorável e infelizmente eu vejo que, em muitos casos, há mais comoção contra o segundo que o primeiro. Felizmente a maioria dos que sigo não são assim, são ferrenhos defensores da criminalização da homofobia, mas tem cada absurdo que se vê por aí...

Meu questionamento vai contra MUIT@S que, infelizmente, vi ter muito mais empenho e revolta contra a morte de um cachorro - que deixo claro, acho absolutamente criminoso e deplorável - do que contra crimes homofóbicos. 

Só esse ano mais de 235 gays, lésbicas, travestis e afins foram ASSASSINAD@S e eu não vejo a mesma repercussão, aliás, não vejo nem 10% da repercussão. Agora, por mais deplorávle que eu ache qualquer tipo de violência contra animais, acho MUITO pior a violência contra outros seres humanos. Sim, eu coloco gradações. Sou contra todo tipo de violência contra gente ou animal, mas contra gente é mt mais grave. Não acho aceitável que haja mais revolta por um cão que por uma criança, simples.

Mas é claro, isto é diferente de dizer que os direitos dos animais são inferiores à luta por qualquer outra causa, ou chegar ao absurdo de interpelar alguém que tenha, por exemplo, um abrigo de animais e mandá-lo fechar o abrigo para abrir um orfanato. São coisas diferentes. 


Não questiono a revolta sobre a morte de um cão ou mesmo a paixão de muitos pelo direito dos animais, o que questiono é a falta de compaixão de muitos para com o ser humano, com ose a miséria humana, por ser tão comum, ser tão cotidiana, já tivesse sido internalizada e aceita.


Minha crítica não vai para o defensor dos animais que se dedica a sua causa com amor e paixão, aquele que se revolta com a miséria humana e a miséria animal, mas sim contra quem consegue passar por uma criança morta de fome na rua sem piscar ee logo depois se escandalizar com um pobre cãozinho abandonado, como se a criança fosse apenas parte da paisagem.

Coloco aqui um caso específico, a morte de Alexandre Ivo, um garoto de 14 anos, gay, brutalmente espancado e morto pelo crime terrível de ser... gay. Quantas pessoas souberam de sua morte? quantos lamentaram quando souberam, ou mesmo resolveram agir?

E, falando em agir, retorno ao ponto do linchamento que citei no começo do texto. A mulher - assassina cruel - que matou o cãozinho teve foto divbulgada, CPF, endereço... Foi ameaçada de morte e até mesmo perfis fakes no Twitter foram criados com a intenção de, de alguam forma, organizar "ações" para atacá-la. 
Fazer justiça com as próprias mãos, em um sentido torpe de justiça. 

Não vi o mesmo empenho, por mais duvidoso que este seja, em se buscar os assassinos de Alexandre Ivo, em se ajudar a família do rapaz, em se colocar na mídia incansavelmente a notícia do cruel assassinato homofóbico.

É claro, podemos sempre dizer que efeito do vídeo do cãozinho sendo espancado acabou gerando uma reação até maior do que a esperada - e não foi indevida -, mas mesmo assim, todos sabendo do que se passou com o rapaz, não vi pouca, na verdade, não vi NENHUMA mobilização séria.

Ao coentar sobre o caso do cão, no Facebook, respostas e mais respostas, comentários, concordãncias e discordâncias... Sobre Alexandre Ivo? Pouca reação.

Devemos, em parte, dar crédito ao sadismo e a curiosidade humana pelo espalhamento quase-viral do vídeo do cãozinho, mas será que só isso explica tudo?

Discute-se a Lei lobo contra o maltrato de animais, não faltaram ativistas e ativistas-de-ocasião, além de revoltadinhos hype exigindo a aprovação da lei para garantir maior proteção aos animais. Faço votos para que seja aprovada, apesar de não conhecê-la muito bem, mas porque não vi mobilização nem remotamente semelhante à aprovação de um PLC122 de verdade, que receberia o nome de Lei Alexandre Ivo?

O Alexey Dodsworth (@_Lasher_) postou em seu blog:
Ainda na ocasião do assassinato do yorkshire, vi algumas pessoas lembrando que ano passado um adolescente (Alexandre Ivo) foi assassinado por motivação homofóbica. Estas pessoas reclamavam que, na ocasião, não houve a mesma comoção. Aqui, é preciso ter alguns cuidados: 1. Será que não houve a mesma comoção? Como quantificar isto? 2. Ainda que não tenha ocorrido a mesma comoção, isso não invalida (ou não deveria invalidar) a indignação contra o assassinato cruel do yorkshire.
Em essência, a afirmação poderia ser resumida da seguinte forma:
“Ao invés de se indignar com o assassinato do cão, vocês deveriam se indignar com o assassinato do garoto gay.”
ou
“Ao invés de se indignar com o assassinato do cão, vocês deveriam se indignar com o fato de que crianças estão nas ruas, morrendo de fome ou fazendo trabalho escravo.”

Acredito que o primeiro ponto, o da percepção da reação alheia seja apenas isso, percepção. Não podemos (podemos?) quantificar, mas acredito ser possível qualificar. E neste ponto vejo que a reação em volta da morte do cachorro tomou proporções estratosféricas raramente vistas em dramas humanos. É ruim? não, mas seria bom que os dramas humanos tivessem também um grau de comoção semelhante.

Já quanto ao segundo ponto, compreendo as afirmações do Alexey e concordo. Não se pode invalidar uma comoção pela ausência ou excesso da outra. Ambas são legítimas. 

Quando da morte de Alexandre Ivo vi muita reação, mas em geral, de pessoas engajadas, normalmente ligadas à uma militância política. Muitas ligadas até mesmo ao Movimento LGBT, de uma forma ou de outra, ou seja, uma revolta legítima de um grupo que normalmente se insurgiria de qualquer forma. Mas fora este grupo ampliado, a história foi morrendo e pouco significou. 


Cheguei a ver pessoas comentando que por mais que o assassinato tivesse sido deplorável, homofobia não existia, era crime "comum" e etc. Ou seja, havia um caso específico, uma morte horrenda com TODOS os sinais de homofobia, mas ainda assim havia "matização", havia uma tentativa de desculpar a gravidade.

Já no caso atual, do cãozinho, a reação se espalhou de tal forma que me surpreende o Fantástico não ter feito matéria exclusiva entrevistando meia dúzia de "especialistas" - se é que não o fez, felizmente não assisto tal programa.


Não posso discordar do Alexey, porém, e cheguei a dizer algo semelhante no meio deste post:
Ora, não é verdade que quem se importa com animais abandonados não liga para injustiças sociais. Insinuações em contrário, ainda que engraçadas, são maldosas. O que acontece é bastante simples de entender: as pessoas, por motivações diversas, são mobilizadas com mais intensidade por algumas coisas.
Reafirmo novamente que o ponto central de minha argumentação não é deslegitimar a revolta por um lado, mas questionar PORQUE chegamos a tal ponto de revolta e, especialmente, PORQUE a revolta em casos como o de Alexandre Ivo - mas poderiam ser outros duzentos e tantos casos de crimes homofóbicos, de adolescentes brutalmente espancados e mortos, de travestis humilhadas, torturadas e mortas e etc - é tão mais... contida.

Todos nós, quando criança, choramos pela morte de algum cãozinho nos filmes da sessão da tarde. Voltamos à infância ou redescobrimos algum sentimento infantil com este episódio?

Será que, como disse o @chcapet:
"O problema é que cachorros são "fofinhos", uma bicha de 14 anos não é. Então pode deixar passar"
A Alê resumiu bem a idéia:
Não há nada de errado com se revoltar com a agressão injusta e cruel contra um animal indefeso. Errado é querer dividir vítimas entre dignas ou não da sua revolta.
Será que somos (ou nos tornamos) tão insensíveis que não nos importamos mais com nossos semelhantes e precisamos encontrar nossa humanidade em outra espécie?
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