terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A revolta síria pode não ser o que parece?

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Enquanto a situação política e mesmo social na síria aparenta cada vez mais piorar, o ocidente e a mídia ocidental - com o perdão de Edward Said - tem se esforçado em pintar o ditador Bashar Al Assad de assassino cruel.

Curioso notar, de início, que o termo “ditador”, usado hoje para designar Assad, começou a ser usado amplamente apenas após o ex-presidente George W Bush incluir a Síria no chamado “Eixo do Mal”. Mesmo assim, a mídia brasileira, em alguns momentos, costumava chamá-lo de “presidente”, mesmo tratamento dado até os derradeiros dias de Hosni Mubarak, no Egito, e outros.

É preciso ter em mente, porém, que Assad não é santo, mas tampouco o lunático sedento de sangue mostrado pela mídia e por seus detratores. A guerra de propaganda está em seu auge.
A Síria é uma região de importância estratégica significativa, não por suas riquezas, poucas em comparação com muitos de seus vizinhos, mas pelas suas fronteiras com regiões de interesse direto dos EUA e, especialmente, por serem grandes financiadores de grupos antagonistas de Israel e dos interesses dos EUA na região, como o Hamas e o Hezbollah.

O governo, assim como Assad, está nas mãos na minoria alauíta, um grupo muçulmano de ritos pouco conhecidos e extremamente fechado, enquanto a maior parte da população é composta por sunitas, mas tem ainda dentro de suas fronteiras consideráveis minorias cristãs, Drusas e Curdas, o que torna a Síria uma espécie de Líbano - ainda - sob controle, mas potencialmente explosivo.

E é do Líbano que muitos "agitadores", como os chamam o governo sírio, vem para ajudar os rebeldes em cidades como Homs, um dos epicentros das revoltas.

Está claro que o início do processo possivelmente revolucionário teve início na cidade de Daara, no sul do país, e é reflexo da insatisfação que a maioria sunita expressa contra um governo que os marginaliza - ou mantém sob controle, dependendo do ponto de vista.



É preciso se livrar de paixões sectárias e compreender que há verdades sendo ditas de ambos os lados. É fato reconhecido que há imensa repressão por parte do exército e polícia contra manifestantes e população civil em geral em um país que é efetivamente uma ditadura, ainda que mais benevolente que a média, mas também é fato que há infiltração de provocadores financiados não só pelos EUA, mas por outros Estados aliados.

A revolta inicial na Síria possivelmente nasceu de forma legítima, como imitação dos protestos que se espalham pela região na chamada Primavera Árabe, mas não surpreende que tenha sido em parte apropriada por inimigos do regime.

E, acima de tudo, é preciso conhecer e reconhecer a colcha de retalhos étnica e religiosa da Síria, o que acaba dificultando a compreensão do que vem acontecendo em seu interior e o comportamento dos distintos grupos – e ainda deve-se acrescentar o imenso contingente de imigrantes iraquianos, especialmente cristãos, fugidos da guerra no país vizinho e das constantes perseguições às minorias.

É possível notar que a ampla maioria dos grupos religiosos ou étnicos minoritários se coloca do lado de Assad. Não por simpatias pessoais ou por terem algum prazer em defender uma ditadura, mas sim pelo temor de um governo sunita que pudesse expurgar minorias e, em especial, aqueles que vem dando sustentação ao regime sírio desde o pai de Bashar al Assad, Hafez al Assad, igualmente brutal na defesa de seu poder.

Ainda que alguns líderes ou mesmo participantes das manifestações contrárias ao regime façam parte de minorias como a cristã, o grosso destas populações se opõe às revoltas com temor justificável. Tendo como modelo o Líbano fraturado por conflitos sectários durante décadas, o Iraque destruído após uma invasão dos EUA e também um grande inimigo personificado por Israel logo ao sul, não surpreende que o apoio a uma ditadura que mantém a paz de seu jeito seja maior do que uma democracia incerta. Aliás, sequer há certeza sobre o modelo que surgiria após a queda de Assad.

Por mais que haja legitimidade nas reivindicações e reclamações de muitos dos revoltosos - fato que é reconhecido mesmo pelo regime -, é inegável que há forte presença de agentes provocadores e, finalmente, há uma oposição que dificilmente se mostra melhor que o regime atual.

Promessas de democracia, de participação ou mesmo de respeito pela identidade múltipla dos sírios - diferentes etnias e confissões religiosas - são algo muito tênue, e podem não passar apenas de propaganda por parte de um grupo,ou grupos, interessados em assumir o poder para repetir os mesmos erros e a mesma violência do grupo atualmente no poder.

Se o Líbano não servir de exemplo, por mais que seja o modelo mais próximo, o Iraque pós-Saddam, com perseguição implacável aos cristãos é motivo suficiente para desconfiança mesmo que um regime democrático surja – ou mais democrático que atual, o que, basicamente, poderia ser qualquer coisa.

Apoiar automaticamente aqueles que se revoltam na Síria, na esteira da chamada Primavera Árabe, não é tão fácil quando se perde um momento estudando a complicada realidade síria. Ter críticas à queda de Assad, por outro lado, não significa apoiar o regime, mas tão somente compreender que forças tem se colocado contra ele e o que pode surgir posteriormente.

Os EUA e Israel tem claros interesses em ver Assad derrubado.

Israel poderia se beneficiar da queda do grande financiador dos dois grupos que mais tem lhe dado dor de cabeça. O Hamas na Palestina e o Hezbollah no Líbano. Estes perderiam importante fonte de dinheiro, ainda que mantivessem o Irã, mas também perderiam suas bases operacionais mais importantes fora de seu território, em especial o Hamas, que conta com embaixada e forte representação no país.

O enfraquecimento de dois dos mais perigosos e insistentes inimigos de Israel seria algo bem vindo para um país que vem se fragilizando externamente e enfrentando revoltas internas. Além disso, um governo “amigo” significaria ampliar a pressão sobre o Irã, maior perigo para a supremacia regional israelense e, claro, para os interesses dos EUA no Oriente Médio.

Os EUA obviamente se congratualariam pela queda de um inimigo regional, ainda que menos assustador ou desafiador aos interesses dos EUA do que aos de Israel, ao passo que um outro país também comemoraria a queda de Assad: A Arábia Saudita.

A Síria costuma ser um aliado pontual, mas importante do Irã, que tem apoiado as legítimas revoltas da maioria xiita do Bahrein, revolta esta sufocada com exemplar violência pela Arábia Saudita, sunita.
Não sentiriam nenhum pesar, pois, de verem um aliado de seus inimigos iranianos-xiitas tombar.

É preciso também deixar claro que, apesar do olhar interessado de Israel em uma possível queda de Assad, há também um temor em relação ao regime que pode surgir: Islâmico e radical. É impossível saber, hoje, se manteriam o apoio ao Hamas e Hezbollah, mas sem dúvida poderia ser um vizinho ainda mais incômodo que o atual.

Os protestos gigantescos que vemos nas ruas de várias cidades sírias são, de ambos os lados, tanto legítimos quanto manipulados. Ambos possuem sua carga de medo, de pressão ou mesmo de legitimidade. Há imensa repressão e mortes causadas pelo governo, mas há saques, intimidações e mesmo massacres comandados pela oposição.

O papel da mídia, mesmo da Al JAzeera, costumeiramente considerada independente, é a de fazer a pressão necessária na opinião pública internacional e tensionar a situação, garantindo simpatia para os rebeldes e demonizando Assad.

Assad tem sua carga de culpa, comanda um regime brutal e não merece qualquer simpatia, mas da mesma forma, boa parte da insurreição e quase toda a oposição não cheira melhor que seu principal inimigo.
Mais do que um conflito eminentemente sírio, é um conflito jogado no cenário internacional, com interesses poderosos em lados opostos e que, no fim, resultarão apenas na perda de vidas e no recrudescimento do regime, qualquer um que assuma.

Publicado originalmente no jornal Brasil de Fato nª 464 de 19-25 de janeiro de 2012
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